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Jornal da Tarde, 24 de julho de 2002
Labirinto sem saída
É imprevisível o futuro do atual confronto israelense-palestino, numa vendeta cujo horror tende a se exarcebar

 
 
Conta-se que, em 1967, já no segundo dia da chamada "Guerra dos Seis Dias" e contornando as defesas jordanianas na parte antiga de Jerusalém, onde, durante 20 anos, os judeus não foram admitidos, o Tsahal alcançou a Esplanada do Templo. O templo referido é o de Salomão, destruído pelos babilônios e reconstruído por Herodes, o Grande, mas, na Esplanada, se ergue, igualmente, a Mesquita de Omar, edificada logo após a conquista da cidade pelos muçulmanos. Não existe, porém, qualquer testemunho histórico de que Maomé ali tenha aterrissado de seu cavalo alado, para receber de Deus o texto do Corão. A lenda piedosa apenas recorda que foram os judeus de Medina que, ao transmitirem ao Profeta os preceitos éticos da Bíblia, lhe revelaram a tradição de serem os árabes, descendentes de Ishmael, similarmente herdeiros do patriarca Abrahão. Ora, ao atingir a Esplanada no segundo dia da guerra, 6 de junho, o rabino-mor das FFAA israelenses, Shlomo Goren, fez soprar o chofar e mandou desfraldar a bandeira.

Mais prudente, e depois de consultar o comandante do exército vitorioso, Itzhak Rabin, o ministro da Defesa, Moshê Dayan, ordenou fosse o pendão azul e branco arriado. Ele temia que, não obstante os direitos históricos de Israel ao local como construtores e criadores originários de seu sentido religioso, o ato provocasse em todo o mundo islâmico uma reação catastrófica contra o próprio Estado israelense. Menos sábio e mais obstinado, Ariel Sharon desencadeou a atual e mais grave crise que ameaça Israel, ao invadir há dois anos a Esplanada como que a reivindicar, simbolicamente, o domínio absoluto de toda a Palestina - do grego Filistia, terra dos Filisteus, o antigo povo que os hebreus haviam dominado ao conquistar seu lar nacional em Canaã, mil anos antes de Cristo.

Desses precedentes históricos se pode deduzir que a Esplanada, acima do Muro das Lamentações, é o eixo da tormenta que sempre cercou essa terra, santa no nome, mas, na realidade, permanentemente ensangüentada pelos aberrantes conflitos étnico-religiosos que inspira.
Quando, em 1967, cheguei a Israel como embaixador, tive ocasião de visitar meu colega britânico que era velho conhecedor da região e, logo no início da conversa, declarou-me: "Quem pensa entender o que se passa nesta terra, ou antecipar o que vai ocorrer, é um tolo" (he's a fool). Nunca me esqueci do conselho. Imprevisível, creio, é o futuro do atual confronto, numa vendeta cujo horror tende a se exacerbar pelo crescente fanatismo, agravado pelo ardor vingativo, pânico e irracionalidade dos contendores. Em artigos lidos recentemente, particularmente do americano Anthony Lewis, velho cronista do New York Times, que qualifica a política de "estúpida e vergonhosa", e do israelense Amon Elon no NY Review of Books (23/5), o pessimismo se intensifica. Ambos revelam bom senso e pertencem a uma corrente, ainda minoritária, que acredita ser absolutamente irresponsável e, em última análise, catastrófica e suicida a política da extrema-direita religiosa e nacionalista. A conquista de toda a Judéia e Samaria, ou seja, toda a área da Cisjordânia ocupada em 67, seria inviável internacionalmente. Para sustentar 200 mil colonos desse território, Israel se transformaria numa nova Prússia ou, como acentua Michael Bem-Yair, ex-ministro da Justiça de Rabin (1993/97), numa espécie de "sociedade colonialista".

Para cada terrorista suicida, cujo número tende a crescer incessantemente, Israel terá de manter mais de mil homens armados. Um satirista do Yediot Aharanot já sugeriu a formação de uma Frente Popular de Libertação das Pessoas Normais, PFLNP. O pior é que, comprometendo a inevitável interdependência econômica das duas comunidades, a política agressiva de Sharon prejudica terrivelmente a luta contra o fundamentalismo islâmico, como acontece igualmente, aliás, na Caxemira muçulmana. A tarefa de Washington, de quem depende em última análise a solução do contencioso, se torna extremamente mais árdua e complexa na obrigação de distinguir entre um louco terrorista, haxixim fanatizado, e um legítimo defensor do direito democrático de autodeterminação. O momento é o pior possível para extirpar o tumor maligno nessas duas áreas periféricas de combate por um mundo civilizado.