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Presidente da Argentina e um dos
maiores sociólogos sul-americanos, surprendeu-me
Domingos Sarmiento em uma de suas obras quando
atribui à herança mourisca, deixada
por 700 anos de ocupação muçulmana
da Espanha e Portugal, muitos dos defeitos de
nossa cultura, particularmente a tendência
a pensar em utopias e cultuar líderes carismáticos.
No entanto, Sarmiento tem razão. Nota-se
um irresistível pendor em nossa mentalidade
sugestionável, emotiva, imaginativa e crédula
em aceitar boatos, mitos, slogans e teorias conspiratoriais.
Em nossos dias, as ideologias totalitárias
que representam religiões-ersatz exercem
tal ação deletéria.
Roberto Campos foi admirável na denúncia
da irracionalidade das moléstias sociais
e Paulo Francis, com seu inimitável estilo,
fê-lo do mesmo modo. Na época em
que tanto se falava em desenvolvimentismo, Campos
ridicularizou o "Método Coué"
de auto-sugestão obsessiva adotado na campanha
progressista.
Repetia-se mil vezes a expressão do desejo
e se acabava convencido de sua realização.
Se a população inteira martela indefinidamente
o slogan Fome Zero, surgirá eventualmente
a bóia cheia nos pratos vazios, sem qualquer
esforço das autoridades.
Há anos que os veículos de opinião
se escandalizam com o morticínio criminoso
em São Paulo e Rio, esperando que o cabeçalho
do jornal terá o efeito mágico de
eliminar os narcotraficantes homicidas, sem recurso
à Justiça ou à Polícia.
Na Rebelión de las Masas, fala Ortega y
Gasset nessa susceptibilidade das multidões
ao poder da mendacidade dirigida. No que diz respeito
às condições de nossa cultura,
abordei o tema na análise da cultura brasileira
empreendida na obra Em Berço Esplêndido
(Topbooks, 1999). A "Magia da Palavra"
em nossa sociedade é o que torna a imaginação
desiderativa mais poderosa do que a realidade
concreta, ponderada no julgamento empírico.
Esvai-se o bom senso. José Maria Alckmin
afirmava "não há fatos, só
há versões!" e Sérgio
Buarque de Holanda identificava "a crença
mágica no poder das idéias"
como uma das características de nossa atormentada
adolescência política e social.
Todos os povos, mesmo os mais cultos da Europa
como os alemães e franceses por exemplo,
é sujeito a crises excepcionais em que
revela problemas semelhantes. Gustave LeBon escreveu
uma obra sobre a Psicologia das Multidões
em que analisa a queda do nível mental
de coletividades, em casos de violentas perturbações
político/religiosas. Nas guerras e revoluções,
exacerba-se a tendência humana em acreditar
no poder da magia. Quando vejo molequinhos palestinos
atirando pedras num tanque israelense, descubro
o fenômeno ostensivamente exibido na tevê.
Na Guerra do Iraque, os mídia nos ofereceram
o exemplo do "pensamento desiderativo"
ao mesmo tempo malicioso, ingênuo e fantasmagórico,
como se a desinformação e a propaganda
descarada fossem suficientes para deter a razão
do poder militar esmagador das forças da
coalizão anglo-americana. Pela repetição,
transformou-se o carniceiro de Bagdá em
Cavaleiro da Távola Redonda, obedecendo
ao conselho do Mein Kampf onde Hitler sugere que
qualquer mentira acaba entrando pela goela da
multidão hipnotizada, por mais absurda
que seja. O Führer tinha mais razão
do que Lincoln, que afirmava não se poder
mentir o tempo todo, enganando não só
alguns, mas todo mundo.
Acredita-se em qualquer bobagem, desde que agrade.
Na passeata, aplaude-se a paz com bandeiras vermelhas.
Queima-se a americana, pensando com isso destruir
um tanque Abrams. Manifesta-se contra o imperialismo,
esperando ressuscitar a múmia de Lenin
de seu túmulo da Praça Vermelha.
Ostenta-se uma reprodução da Guernica
de Picasso, assim derrubando um bombardeiro B-2,
invisível ao radar. A triste cena na tevê
de uma criança ferida, num hospital, mais
abala do que qualquer argumento lógico.
Insere-se um bigode hitlerista na foto de Bush,
reforçando a convicção de
que o gângster não se chama Saddam,
mas George W. - e, com tais gestos simbólicos
de magia simpática numa vociperambulante
multidão de imbecis coletivos, transfere-se
milagrosamente a ferocidade de um fanático
haxixim suicida da jihad islâmica para cima
de um marine da Força Expedicionária
aliada. Considerai que os contos da odalisca Sherazade
são o que de mais notável produziu
a literatura árabe, tendo Bagdá
como centro privilegiado e o Sultão-Califa
como o mais magnânimo, mais genial e mais
lúcido de todos os déspotas. Vislumbra-se
a torpeza do vilão de encomenda que não
será abatido no campo de batalha, mas exaltado
nos recantos secretos da mente coletiva - mais
convincente no ambiente onírico da ficção
romântica quando transferido para o terreno
da análise política e do cálculo
diplomático.
Divagação no sonho, excitação
emotiva pelo enredo e a imagem. Puro mantra encantatória.
Magia da palavra e do olhar.
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