home
 

Considerações sobre Chávez, Fidel e El Che


Considerações sobre a guerra civil espanhola


Creta e um outro Tsunami

 
 
     

Jornal da Tarde 9 de junho de 2003
Os bonzinhos e os mágicos

 
 

Presidente da Argentina e um dos maiores sociólogos sul-americanos, surprendeu-me Domingos Sarmiento em uma de suas obras quando atribui à herança mourisca, deixada por 700 anos de ocupação muçulmana da Espanha e Portugal, muitos dos defeitos de nossa cultura, particularmente a tendência a pensar em utopias e cultuar líderes carismáticos. No entanto, Sarmiento tem razão. Nota-se um irresistível pendor em nossa mentalidade sugestionável, emotiva, imaginativa e crédula em aceitar boatos, mitos, slogans e teorias conspiratoriais. Em nossos dias, as ideologias totalitárias que representam religiões-ersatz exercem tal ação deletéria.

Roberto Campos foi admirável na denúncia da irracionalidade das moléstias sociais e Paulo Francis, com seu inimitável estilo, fê-lo do mesmo modo. Na época em que tanto se falava em desenvolvimentismo, Campos ridicularizou o "Método Coué" de auto-sugestão obsessiva adotado na campanha progressista.

Repetia-se mil vezes a expressão do desejo e se acabava convencido de sua realização. Se a população inteira martela indefinidamente o slogan Fome Zero, surgirá eventualmente a bóia cheia nos pratos vazios, sem qualquer esforço das autoridades.

Há anos que os veículos de opinião se escandalizam com o morticínio criminoso em São Paulo e Rio, esperando que o cabeçalho do jornal terá o efeito mágico de eliminar os narcotraficantes homicidas, sem recurso à Justiça ou à Polícia. Na Rebelión de las Masas, fala Ortega y Gasset nessa susceptibilidade das multidões ao poder da mendacidade dirigida. No que diz respeito às condições de nossa cultura, abordei o tema na análise da cultura brasileira empreendida na obra Em Berço Esplêndido (Topbooks, 1999). A "Magia da Palavra" em nossa sociedade é o que torna a imaginação desiderativa mais poderosa do que a realidade concreta, ponderada no julgamento empírico. Esvai-se o bom senso. José Maria Alckmin afirmava "não há fatos, só há versões!" e Sérgio Buarque de Holanda identificava "a crença mágica no poder das idéias" como uma das características de nossa atormentada adolescência política e social.

Todos os povos, mesmo os mais cultos da Europa como os alemães e franceses por exemplo, é sujeito a crises excepcionais em que revela problemas semelhantes. Gustave LeBon escreveu uma obra sobre a Psicologia das Multidões em que analisa a queda do nível mental de coletividades, em casos de violentas perturbações político/religiosas. Nas guerras e revoluções, exacerba-se a tendência humana em acreditar no poder da magia. Quando vejo molequinhos palestinos atirando pedras num tanque israelense, descubro o fenômeno ostensivamente exibido na tevê. Na Guerra do Iraque, os mídia nos ofereceram o exemplo do "pensamento desiderativo" ao mesmo tempo malicioso, ingênuo e fantasmagórico, como se a desinformação e a propaganda descarada fossem suficientes para deter a razão do poder militar esmagador das forças da coalizão anglo-americana. Pela repetição, transformou-se o carniceiro de Bagdá em Cavaleiro da Távola Redonda, obedecendo ao conselho do Mein Kampf onde Hitler sugere que qualquer mentira acaba entrando pela goela da multidão hipnotizada, por mais absurda que seja. O Führer tinha mais razão do que Lincoln, que afirmava não se poder mentir o tempo todo, enganando não só alguns, mas todo mundo.

Acredita-se em qualquer bobagem, desde que agrade. Na passeata, aplaude-se a paz com bandeiras vermelhas. Queima-se a americana, pensando com isso destruir um tanque Abrams. Manifesta-se contra o imperialismo, esperando ressuscitar a múmia de Lenin de seu túmulo da Praça Vermelha. Ostenta-se uma reprodução da Guernica de Picasso, assim derrubando um bombardeiro B-2, invisível ao radar. A triste cena na tevê de uma criança ferida, num hospital, mais abala do que qualquer argumento lógico. Insere-se um bigode hitlerista na foto de Bush, reforçando a convicção de que o gângster não se chama Saddam, mas George W. - e, com tais gestos simbólicos de magia simpática numa vociperambulante multidão de imbecis coletivos, transfere-se milagrosamente a ferocidade de um fanático haxixim suicida da jihad islâmica para cima de um marine da Força Expedicionária aliada. Considerai que os contos da odalisca Sherazade são o que de mais notável produziu a literatura árabe, tendo Bagdá como centro privilegiado e o Sultão-Califa como o mais magnânimo, mais genial e mais lúcido de todos os déspotas. Vislumbra-se a torpeza do vilão de encomenda que não será abatido no campo de batalha, mas exaltado nos recantos secretos da mente coletiva - mais convincente no ambiente onírico da ficção romântica quando transferido para o terreno da análise política e do cálculo diplomático.

Divagação no sonho, excitação emotiva pelo enredo e a imagem. Puro mantra encantatória. Magia da palavra e do olhar.