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Jornal da Tarde, 10 de novembro de 2003
ENSAIO SOBRE A POBREZA

 
 

Volto novamente ao triste tema do “empobrecimento”, teimosamente repetido em virtude de um vício demagógico do qual os políticos, ou os que ambicionam entrar para a política ou fazer política, não conseguem se abster. Em sua recente viagem à África, o eminente e preclaro Presidente da República mais uma vez falou em “empobrecimento” que, segundo ele, seria o resultado da Globalização. Ora, creio ser necessário mais uma vez corrigir o falso conceito que, de modo algum, é sustentado em cifras concretas. Recorro, novamente, aos índices revelados pela instituição imperativamente obrigada a fornecer os resultados mais corretos e objetivos possíveis, sem preocupações ideológicas: o Banco Mundial. No Relatório deste ano, baseado em dados de 2000 e 2001, o WB assinala que o PIB do Moçambique cresceu 14%, com um aumento líquido do percapita de 11,5% (PIB menos crescimento demográfico). Em outras palavras, Moçambique é um país exemplar em matéria de enriquecimento, após o período desastroso de guerra civil e fome que o devastou. Angola cresceu pouco, 2,1%, mal dando para compensar o aumento populacional considerável. Trinta anos de guerra civil foram causados pela intervenção predatória de mercenários cubanos a soldo da União Soviética. Quanto à África do Sul, e não obstante os achaques do fim da apartheid e adaptação às novas condições de convivência étnica, política e econômica, verifica-se que seu PIB de US$472 bilhões e percapita de onze mil dólares torna o país um paradigma para todo o malsinado continente. Neste sentido, me cabe prestar homenagens aos dois grandes líderes e heróis africanos, Jonas Savimbi e Nelson Mandela.

De qualquer forma, em nenhuma das nações citadas e visitadas por nosso sábio, simpático e loquaz Presidente, existe qualquer sinal de empobrecimento da população. O fato é que o enriquecimento, este sim, é a condição normal de qualquer população que viva em paz, sob um regime liberal democrático de economia de mercado e um vigoroso Estado de Direito (rule of law, em inglês). A Globalização desses sistemas, inclusive nas duas mais populosas nações do mundo, China e Índia que apresentam um crescimento bi-anual médio, respectivamente de 7.3% e 5.4% da renda percapita, depõe em favor dos efeitos positivos da abertura das respectivas economias, aumento do comércio internacional, respeito ao direito de propriedade e liberdade empresarial, no processo global atualmente registrado. Em suma, não há empobrecimento, só há enriquecimento. E que me perdoem os não concordam com essa opinião, ou por ignorância, ou por preconceitos teológico-ideológicos ou, simplesmente, por burrice – eu reitero que a tese é inabalável e desafio a quem pretenda desmenti-la. Para fortalecimento de minha posição, quero recomendar aos leitores o admirável ENSAIO SOBRE A POBREZA, que acaba de ser publicado pela editora da UniverCidade no Rio de Janeiro. Trata-se da tradução de um pequeno Mémoire, escrito por Aléxis de Tocqueville em 1835 após uma viagem à Inglaterra. Torcqueville, o maior sociólogo francês, deixou-nos duas obras-primas, DE LA DÉMOCRATIE EM AMÉRIQUE e L´ANCIEN RÉGIME ET LA RÉVOLUTION FRANÇAISE, que são evidentemente muito mais conhecidos e que o tornaram uma figura singular nas letras e na ciência francesas. O pequeno Ensaio, traduzido e publicada no Rio, está acompanhado de cinco trabalhos de análise crítica de Gertrude Himmelfarb, historiadora americana; André Andrade, economista; Mário Guerreiro e Ricardo Vélez Rodriguez, filósofos; Arno Wehling, Presidente do IHGB, assim como de minha Apresentação do livro. Os comentários críticos procuram destacar a tese do eminente pensador francês numa perspectiva brasileira. O traço fundamental do Paradoxo é logo explicitado no Mémoire sur le Paupérisme quando diz Tocqueville: “Quando cruzamos os vários países da Europa, ficamos surpresos com uma visão extraordinária e, aparentemente, inexplicável. Os países que parecem ser os mais pobres são aqueles que, na realidade, têm menos indigentes, enquanto que, entre os povos mais admirados por sua opulência, parte da população é obrigada a contar com doações dos outros para poder sobreviver”. O que o impressionou pode ser imediatamente ilustrado no longo artigo do ESTADÃO, comparando o mais rico município da capital paulista com o mais paupérrimo do Maranhão. É na cidade mais “opulenta” do Brasil, e não no Maranhão, que encontramos favelas, mendigos nas ruas e criminalidade crescente, junto com o escandaloso contraste entre ricos e pobres que leva os tolos a falar em “empobrecimento”. Na verdade, o diagnóstico correto se deduz da comparação entre a riqueza da Inglaterra, com seus inevitáveis contrastes e desigualdades circunstanciais, e a pobreza da Espanha e Portugal – que eram o Piorão da Europa ocidental daquela época.