| O
controle da opinião pública através
da desinformação está atingindo
níveis insuportáveis neste últimos
tempos. Sem partilhar da tese de meu amigo Olavo
de Carvalho sobre a existência de uma "conspiração",
com um centro diretor em Moscou, tal como existia
antes de 1989, confesso mais acreditar numa espécie
de vírus da Síndrome da Deficiência
Imunológica Adquirida que acorrenta as
mentes suscetíveis, ignorantes ou ingênuas.
Pode-se hoje falar num Carandiru encarcerando
uma parcela considerável da opinião
botocuda. A transmissão da dezinformatsyia
se faz de três maneiras diferentes: 1) de
modo direto ou pela mentira; 2) pela ocultação
da relevante notícia verdadeira; e 3) pela
ambigüidade, a duplicidade ou o doubletalk.
Exemplo clássico da ocultação
da verdade é o "esquecimento"
do fuzilamento, em Barcelona, de milhares de anarquistas
do Poum pelos comunistas, assim como de milhões
de cidadãos soviéticos pela paranóia
de Stalin, em 1937 - tudo afastado da atenção
histórica graças a uma pintura que
Picasso, oportunisticamente, denominou Guernica
e foi solenemente pendurada no Museu do Prado
para nos horrorizar com a morte de algumas centenas
de bascos na guerra civil espanhola.
Silêncio com relação a fatos
importantes é a celebração
barulhenta do 11 de setembro, o aniversário
da morte de Allende e o centenário do nascimento
de Adorno, dois marxistas, pelo qual se procura
ofuscar a lembrança do ataque terrorista
a Nova York. Deixa-se ainda de mencionar que durante
os 68 anos de existência da ONU só
duas vezes o Conselho de Segurança (CS)
determinou uma intervenção armada
- a primeira em 1950, quando foi a Coréia
do Sul invadida, não tendo ocorrido veto
soviético pela ausência do delegado
da URSS, o que tornou a decisão polêmica
em termos da Carta; e a segunda na Guerra do Golfo
de 1991. Na crise de Kosovo em 1999, ao contrário,
a intervenção da Otan contra a Sérvia
se realizou não obstante o veto russo no
CS. A ambigüidade ou doubletalk onusiano,
de teor realmente genial, é ilustrada pelo
texto do embaixador Sardenberg no Estadão
de 24/8. Num parágrafo de lógica
pesada, em 20 linhas, consegue nosso representante
permanente em Nova York transmitir a suspeita
de que a responsabilidade pela morte de Sergio
Vieira de Mello cabe realmente aos americanos.
"As trágicas conseqüências
do atentado terrorista constituem inequívoco
alerta para a precariedade da situação
criada pela intervenção, realizada
à margem do arcabouço legal e para
o risco de envolver a organização
em atividades associadas a uma situação
de legitimidade questionável..." Não
havendo qualquer resolução do CS
que proíba a intervenção
no Iraque, a gente se pergunta qual o verdadeiro
propósito de um diplomata de tão
reconhecida inteligência e competência
em agredir de forma quase caluniosa uma potência
amiga da qual dependem nossas pretensões
a um assento permanente no aludido conselho.
Outra amostra de pérfida ambigüidade
é a página no Jornal do Brasil de
4 do corrente, tendo como título "Militares
vão investigar bioterror". O nome
do suspeito, Hossein El-Nashaar, deixa inicialmente
a impressão de que se trata de um fundamentalista
islâmico. O noticiário, porém,
envolve a embaixadora americana Donna Hrinak,
que teria sido "convocada" pela Câmara,
como se culpada de algum crime. Desde quando podem
os deputados brasileiros "convocar"
um embaixador estrangeiro? Toda a matéria
procura simplesmente atribuir aos americanos o
desígnio perverso de arruinar a agricultura
da soja, a fim de proteger ilicitamente seu próprio
cultivo. O muçulmano se transforma em agente
do imperialismo ianque, empenhado em impor sobre
todo o globo sua fórmula "neoliberal"...
Evidentemente, a acusação que foram
os americanos que fizeram explodir o foguete na
base da Alcântara - exemplo do primeiro
tipo de desinformação - é
demasiadamente crua e primária para ser
aceita. Não tem o refinamento da hipótese
de que foi a própria CIA que montou o ataque
às Torres Gêmeas para justificar
a conquista do petróleo do Iraque, em prejuízo
das ambições da Braspetro no mesmo
sentido.
Outra curiosa fonte de desinformação,
destinada a dar a impressão de um permanente
contencioso com os EUA, é de origem econômica
e visa, de forma primitiva e quase infantil, a
transformar a Alca numa conspiração
"imperialista", visando a empobrecer
o país. Ora, se exportamos para os EUA,
ano passado, US$ 15 bilhões, um quarto
de nossas vendas, e importamos US$ 10 bilhões,
com saldo de US$ 5 bilhões a nosso favor,
resulta que os EUA são nosso principal
freguês, o que convenceria mesmo o mais
tapado carcamano do armazém da esquina
do valor do livre comércio com a América.
Mas os americanos, como afirmou o exmo. sr. presidente
da República, defendem "seus interesses,
seus interesses, seus interesses". É
nós? Não defendemos os nossos interesses,
os nossos interesses, os nossos interesses? Há
algum mal nisso?
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