| Prelúdio
O panorama mundial parecia, em suma, extremamente
promissor, quase eufórico, ao término
do Segundo Milênio. Não é
isso, contudo, o que hoje ocorre. Estamos diante
de novas e inéditas ameaças e, claramente,
conhecemos um novo tipo de Guerra Fria ou conflito
de baixa intensidade. Rebelde e baderneira, a
Esquerda “pós-moderna” se mobiliza
em manifestações ruidosas, indumentária
de palhaços, arruaças com bandeiras
vermelhas, multidões de caras pintadas,
intensa propaganda nos mídia que controlam
e sempre eficiente pichação de paredes,
junto com quase invariável insucesso eleitoral.
Na atual perspectiva, é o Brasil a grande
e escandalosa exceção, o que explicaria
tenhamos, subitamente, passado de terra incognita
a notícia de primeira página nos
grandes jornais do mundo.
Fixemos desde logo as diferenças entre
o período anterior e o atual. Entre 47
e 89, dois grandes blocos fortemente armados ominosamente
se enfrentavam. Guerras locais pipocavam alhures.
Eram duas Superpotências e Sistemas em choque
- exacerbando a tensão mundial. A estrutura
do Estado/nação soberano se articulava
em alianças formais e informais, ninguém
levando a sério os pruridos dos ”não-alinhados”
na polarização. Nessa base, podia
Samuel Huntington falar em conflitos de cultura
e Paul Kennedy antecipar a exaustão dos
grandes “impérios” pelo armamentismo
patológico. Na situação atual
a dissensão ideológica que se expressava
em termos geográficos se transforma num
contencioso cronológico entre os que se
enraízam, obstinadamente, em seus particularismos
estreitos de sentido político e, sobretudo,
cultural e religioso, e os que se adaptam às
condições geradas pela globalização
galopante. Paradoxalmente, a Esquerda é
hoje provinciana e reacionária. Mobiliza-se
contra o que aparece como o movimento irreversível
da história. Os Estados Unidos são
odiados porque representam, precisamente, o pluralismo
cosmopolita e o núcleo vigoroso dos grandes
ideais “futuristas” - o liberalismo
econômico, o feminismo, a revolução
sexual, as preocupações ecológicas
e o avanço irresistível da ciência
e tecnologia.
O Fundamentalismo Islâmico
Esse aspecto da questão é da maior
relevância na apreciação da
questão islâmica. Com efeito, enquanto
as três grandes “religiões”
da Ásia Oriental são essencialmente
tolerantes, o Budismo por seu “ateísmo”
originário, o Confucionismo por ser mais
uma ética social do que propriamente uma
religião sacramental e ritual, e o Hinduísmo
por força de seu amplo politeísmo
em que proliferam os deuses em promíscua
convivência - o Islamismo é fundamentalmente
exclusivista. A civilização islâmica
foi incapaz de elaborar uma filosofia política
que proporcionasse consistência e legitimasse
a autoridade estatal num pluralismo de grupos
sociais. Os Sultões otomanos e os Imperadores
Mogóis da Índia conseguiram alcançar
um certo equilíbrio nesse sentido, estabelecendo
uma hierarquia de classes sociais ou “nações”,
de base puramente religiosa e um alicerce na escravidão.
A mistura de religião e política,
o que quer dizer, a ausência de uma teoria
do duplo gládio, ou separação
da Igreja e do Estado, separação
do poder espiritual e do poder temporal numa sociedade
secularizada - foi o que comprometeu o Islam.
Seu monoteísmo ciumento nos parece hoje
arcaico. Ao contrário de Cristo, foi Mahomé
seduzido pela tentação diabólica
do poder. Não encontramos em sua biografia
nada que se comparece ao Vade Retro, Satana! com
que Jesus afastou a oferta que lhe fazia o demônio
de lhe entregar, em troca de um ato de submissão
política, todos os reinos da terra.
O exemplo mais evidente da nova “polarização”
cronológica entre o passado medieval e
o futuro, dito “pós-moderno”
se encontra no Fundamentalismo islâmico.
Por isso mesmo, ele desperta a simpatia entusiástica
dos vários etnocentrismos violentos e renitentes
egoísmos sócio-econômicos
como o de um Bové com seus queijos; do
IRA e seu pseudo-catolicismo arcaico; dos Bascos
e seu irredentismo; dos Talibans com seu machismo
homicida; de Fidel e Chávez. com sua obsoleta
tradição caudilhesca; e dos brasileiros
com o Sebastianismo redivivo, transformando o
Pai dos Pobres em Papai Noel, sentado na curul
presidencial. Um saco de gatos, em suma. Não-alinhados
esporádicos e duvidosos são hoje
a China, a Rússia, a Alemanha e a França,
porque a isso se podem permitir. O fator novo
é, porém, horripilante. Se na Guerra
Fria se temia o holocausto nuclear, eram os dois
lados, pelo menos, governados por estadistas racionais,
enquanto a malta de alucinados é agora
composta de terroristas suicidas, dispostos a
usarem de quaisquer meios de destruição,
muito mais ominosos pois ninguém sabe quais
os efeitos de um Apocalipse bélico com
armas químicas ou bacteriológicas.
Resta portanto este terceiro fator de risco sobre
o qual me debruço - o Islam. É a
mais nova, complexa e séria resistência
à lenta tentativa de formação
de uma Nova Ordem Espontânea Global, capaz
de superar as diferenças étnicas,
religiosas e culturais da humanidade - um desafio
complexo porque possui elementos exógenos
e endógenos, o que quer dizer inerentes
à nossa própria sociedade livre.
A Sociedade Aberta requer a superação
das formas políticas ou pseudo-religiosas
(ideológicas) mais salientes que podemos
distinguir como “coletivistas”.
Isto quer dizer que o Islam (“submissão”)
cristaliza o ressentimento, exclusão e
repúdio anti-globalização
do “Terceiro Mundo” marginal - o mundo
do atraso que foi deixado de lado pelo Enlightenment,
tal qual foi formulado por Galileu, Hobbes, Descartes.
Locke, Spinoza, Hume, Adam Smith, Montesquieu,
Voltaire, Kant, Humboldt, Burke, Bastiat, Benjamin
Constant, Tocqueville, Stuart Mill e os “Pais
da Pátria” americanos no espírito
de 1776 - Franklin, Madison, Jefferson, Hamilton,
Paine, etc.. O mundo formado pela “Revolução
Gloriosa” inglesa, de 1669, e a Independência
americana de 1776 que “institucionalizou”
a Liberdade e se consolidou no Constitucionalismo
moderno - conforme salientado por Hannah Arendt
- implica a vigência do Princípio
da Tolerância e a separação
da Igreja e do Estado com suas conseqüências
na liberdade de culto, expressão, imprensa,
“livre pensamento” e de feminismo,
com o casamento romântico substituindo o
antigo patrimonialismo patriarcal.
Este aspecto da questão é da maior
relevância. O Islamismo é fundamentalmente
exclusivista em seu monoteísmo machista
e ciumento. Não podemos aceitar que possam
os muçulmanos construir uma mesquita na
Massachussets Avenue, em Washington, bem em frente
à Embaixada do Brasil, mas não possam
um brasileiro, um americano, um católico,
um protestante, um judeu ou um ateu entrar em
Meca ou Medina, ou mesmo atravessar, sem risco
de serem assassinados, a Esplanada do Templo em
Jerusalém - esplanada essa que, afinal
de contas, foi construída por judeus.
Em suma, as sociedades islâmicas são,
em sua maioria absoluta, sociedades fechadas,
totalitárias e obsoletas. A frase “choque
de civilizações”, que serve
de título a uma obra do professor Samuel
Huntington, o ilustre mestre de Harvard, define
o que está ocorrendo. Contra a Sociedade
Aberta que se moderniza, enriquece, avança
na ciência e tecnologia, e domina hoje como
paradigma o mundo globalizado, permanece intratável
este grotesco fantasma reacionário do tipo
vigente do Sudão ao Afeganistão,
e a outras áreas tão distantes quanto
o sul das Filipinas e o leste de Indonésia
Eis a questão e o tema deste ensaio.
Fundamentalismo e Absolutismo
A crônica das monarquias islâmicas
é absolutamente lamentável. Só
duas dinastias, aliás não-árabes,
conseguiram sobreviver mais de duas ou três
gerações, precisamente a dos turcos
Otomanos e a dos Grão-Mogóis da
Índia. De modo invariável, as lutas
sucessórios entre herdeiros comprometiam
qualquer esforço de consolidação
de Estados, legitimados pelo consenso de suas
populações e pacificados sob o império
da Lei. O assassinato, como veremos, se tornou
o único método reconhecido de debate
e solução de conflitos de interesses,
opinião pessoal, família, classe
ou etnia. A violência sanguinária
acompanhou a própria vida e morte do Profeta.
É esse divisionismo, acoplado com a tirania
e o sectarismo doutrinário, o que comprometeu
definitivamente a civilização muçulmana,
logo após os primeiros séculos de
glória e até o choque desastroso
que sofreu, de um lado, com a Cruzada cristã
e, do outro, com as grandes invasões turcas
e mongóis.
O principal problema do nacionalismo árabe
surgido após a desintegração
do Império otomano e o colapso do British
Raj - o Império Britânico - foi a
intolerância e o espírito carcerário
das instituições político-religiosas.
Não podemos aceitar, por exemplo, que possam
os muçulmanos construir uma mesquita na
Massachussets Avenue, em Washington, bem em frente
à Embaixada do Brasil, mas não possa
um brasileiro, um americano, um europeu qualquer,
um católico, protestante, judeu ou ateu,
entrar em Meca ou Medina. Os suíços,
que são um dos povos mais democráticos
do mundo, porém mui ciosos dos privilégios
da cidadania, receberam há alguns anos
atrás de delegações árabes
o pedido de construção de uma mesquita
em Genebra, cidade cosmopolita por excelência.
As autoridades helvéticas imediatamente
responderam que concordariam de bom grado com
a idéia se, aos suíços, fosse
autorizada a construção de uma igreja
ou templo cristão em Meca. Ninguém
mais falou no assunto... A proibição
de atividade missionária, a perseguição
a minorias cristãs, judaicas, hindus ou
bahai em países como o Iran, Sudão,
Indonésia, Arábia Saudita, Nigéria
e Paquistão (para não falar, evidentemente,
do Afeganistão) e os sangrentos conflitos
entre comunidades religiosas em grande número
de nações islâmicas, tornam
uma farsa a assinatura, por esses países,
da Carta das Nações Unidas e de
uma infinidade de documentos que assegurariam
o respeito universal aos princípios comezinhos
dos chamados “Direitos Humanos”. A
perseguição aos não-muçulmanos
têm ocorrido com frequência crescente
em tais países, massacres, destruição
de igrejas, assassinatos de fiéis e outras
violações flagrantes dos direitos
mais elementares. O caso mais triste seja talvez
o do Sudão onde uma repressão permanente,
por parte de uma minoria de militares muçulmanos
e ricos mercadores, semi-arabizados, tem flagelada
a porção meridional do país,
habitada por tribos bantus cristianizadas ou pagãs
- calculando-se em dois milhões o número
de vítimas, o maior genocídio naquele
continente problemático.
Um nome a lembrar, no estudo do Fundamentalismo,
é a ensaísta e historiadoras das
religiões, ex-freira católica inglesa,
Karen Armstrong. Em sua obra sobre o fundamentalismo
religioso, The Fight for God, Armstrong menciona
o egípcio Sayyid Qutb, nascido em 1906
e executado por Nasser em 1966, como o cérebro
detrás da atual vaga mortífera de
terrorismo islâmico. Líder de uma
facção extremista, esse intelectual
muçulmano ocupou um alto cargo no governo
militar egípcio que foi responsável
por duas guerras perdidas contra Israel, 1956
e 1967. O curioso é que ele viveu três
anos nos EUA, entre 1948 e 1951, estudando em
Washington, na Califórnia e no Colorado.
O contato com a vida americana o tornou, porém,
um inimigo implacável de tudo que a modernidade
representa no paradigma da American Way of Life.
Em artigo recente na revista de The Weeky Standard
(29/4), o sociólogo indiano de origem portuguesa
Dinesh D´Souza o descreve como o "pai
intelectual" da Jihad antiocidental. Embora
nunca tivesse pregado abertamente o uso da violência,
Qutb seria o inspirador eminente dessa espécie
de frenético impulso suicida/homicida que,
nos últimos anos, tem atormentado o mundo
civilizado. Matar os infiéis. Matar sobretudo
americanos e judeus. Matar todos aqueles que se
recusem a adotar as normas estritas do Corão.
Eliminar no sangue o liberalismo, a idolatria,
o "relativismo" moral, o pluralismo
de crenças e opiniões, a tolerância
com qualquer seita ou partido não consentâneos
com os ensinamentos de Mohammed, combatendo sobretudo
os vários aspectos da revolução
sexual, a igualdade de homens e mulheres e a permissividade,
a estas concedidas, em matéria de relacionamentos
que não impliquem estrita submissão
ao machista patriarca - tal seria o Programa da
Irmandade Muçulmana que Qutb liderou e
que Osama bin Laden pretende (ou pretendia) espalhar
pelo mundo. Se o Ocidente moderno se define pelo
termo liberdade, o Islã é antes
de tudo "submissão", "obediência".
É isto o que se deduz da obra principal
de Qutb, À Sombra do Corão, escrito
na prisão e curiosamente semelhante, em
seus métodos e propósitos, aos Cadernos
de Gramsci.
Referência especial cabe à Turquia.
A revolução kemalista foi um dos
mais interessantes episódios da primeira
metade do século XX. Mustafá Kemal
Atatürk se revela, nesse sentido e à
luz da emergência do terrorismo fundamentalista
islâmico, uma das figuras exponenciais de
estadista. A decisão do líder turco
de adotar o alfabeto latino e o Código
Napoleão foi realmente genial. Essas iniciativas
lhe serviram para laicizar o país e reduzir,
quase até a extinção nas
camadas da elite, a influência da legislação
corânica. Não que o Fundamentalismo
não tenha adeptos no país. Parece
evidente, de fato, que o propósito da nação
turca, hoje a de mais avançada industrialização
e renda percapita entre os da área, é
a inclusão na Europa e entrada na Comunidade
européia. Tem sido, aliás, a Turquia,
desde o princípio, membro fiel da OTAN
e aliado particularmente atuante dos Estados Unidos
- salvo na surpreendente virada dos últimos
meses, talvez causada pela vitória de um
Partido islâmico e pelo desejo de integração
na Europa da CEU.
A Charada Iraquiana
O mais recente entrevero entre o Ocidente e o
Islam se deu após o ataque terrorista contra
Nova YHork, em setembro 2001, e na curta guerra
do Iraque, Abril/Maio 2003. Falemos, em primeiro
lugar, desta última, antes de discutir
o fenômeno mais complexo do terrorismo.
O rápido desfecho da questão com
o Iraque se deu depois de muito blá-blá-blá
nos corredores da ONU e nos gabinetes das grandes
chancelarias. A boa diplomacia é ziguezagueante,
a política externa labiríntica,
a opinião pública caprichosa e cambiante
como uma mulher, os mídia empenhados, como
sempre, na desinformação ideológica
e no escândalo - por isso foi o conflito
no Iraque uma das mais espessas charadas a que
tenho assistido. Curta é a memória
dos povos, valendo no entanto lembrar alguns episódios
afins, não tão recentes. Após
a IIa Guerra Mundial, parte da qual foi combatida
na África do Norte, as duas potências
então hegemônicas na área,
Grã-Bretanha e França, abandonaram
seus “protetorados” e “mandatos”,
herdados de 1919. dando independência a
uma série de estados de contornos pouco
definidos e estrutura instável: as monarquias
da Arábia e Jordânia, e as repúblicas
do Iraque, Síria e Líbano. Em 1956,
ingleses e franceses, apoiando uma iniciativa
de Israel em que se notabilizou o general Moshê
Dayan, invadiram o Egito para anular a nacionalização
do canal de Suez que o coronel Nasser acabava
de decretar. Neste caso, a URSS ameaçou
intervir em favor dos árabes, mas foi o
Secretário de Estado americano John Foster
Dulles, linha-dura, quem obrigou os europeus a
recuar, assim arruinando a carreira do Premier
britânico Anthony Éden, herdeiro
e sucessor de Churchill na liderança do
Partido Conservador. O resquício do colonialismo
europeu se desmoralizou, mas Israel conseguiu
a abertura do golfo de Aqaba sobre o Mar Vermelho,
ao qual até então não tinha
acesso. Depois da morte de Nasser com o fiasco
da Guerra dos Seis Dias (1967), os americanos
fincaram o pé no Egito que, até
hoje, é um dos países que deles
mais recebem ajuda e mais drasticamente reprimem
os extremistas islâmicos. Foi também
o primeiro e único que reconheceu o Estado
de Israel.
Os franceses fizeram, posteriormente, mais de
uma dúzia de incursões colonialistas
na África, continuaram anos a fio a conduzir
uma sangrenta repressão aos rebeldes argelinos
e provocaram a guerra do Vietnam, na tentativa
de reconquistar a Indochina. Os americanos lhes
herdaram o abacaxi. No momento em que escrevo,
tropas francesas aquartelam na Costa do Marfim,
participando de uma guerra civil contra liberianos
e guineanos na qual, num só dia, mais de
trezentos civis foram mortos. Não houve
qualquer recurso ao Conselho de Segurança
da ONU. Nem passeatas. Nem protestos de pacifistas.
Nenhum país europeu manifestou sua repulsa
a tal demonstração de velho colonialismo
e a Chancelaria brasileira manteve-se discreta,
caladinha, como em geral é seu costume.
Por que então, tendo em vista essa passividade
geral, a súbita onda de entusiasmo em favor
de um dos maiores facínoras totalitários
que governaram o Oriente Médio?
Outro exemplo, que volto a recordar. Em 1999,
encabeçados pela França e a Alemanha,
os europeus da OTAN solicitaram a intervenção
dos USA contra os sérvios que empreendiam
a “limpeza étnica” dos albaneses
de Kôssovo mas, em apoio a Milosevitch,
a Rússia vetou qualquer intervenção
contra o velho cacique nacional-comunista. Depois
de algumas semanas de bombardeio aéreo
em que não perderam soldado ou piloto algum,
os americanos finalmente interromperam a guerra
civil iugoslava que, em dez anos, custou a vida
de pelo menos 250 mil civis. Hoje os principais
dirigentes sérvios estão em Haia,
defendendo-se de acusações de genocídio
na Corte Internacional de Justiça. Entretanto,
jamais ouvi comentários desairosos à
arrogância européia, brados indignados
contra a sangrenta matança vermelha de
conotações étnicas, empreendida
pelos herdeiros de Tito - católicos croatas,
ortodoxos sérvios e muçulmanos bósnios
e albaneses.
pacifismo, como se vê, é muito
discriminatório... O que me fez lembrar
o patético Chamberlain que, na Conferência
de Munique de 1938, tentou “pacificar”
Hitler e voltou a Londres, armado com seu guarda-chuva
e um papel na mão, logo à porta
do avião ao desembarcar, proclamando “peace
in our time”. Em vez da paz, veio a IIa
Guerra Mundial... Saddam é o Hitler islâmico
e não por acaso o Reichsführer.SS
Himmler, que comandou o holocausto dos judeus,
declarou admirar o Islam porque “educa os
homens para o combate, sendo uma religião
muito prática para soldados porque lhes
promete o Paraíso se morrerem”.
Acontece além disso que, jamais em sua
existência de quase 60 anos, conseguiu o
Conselho de Segurança da ONU qualquer ação
concreta, no cumprimento da obrigação
de “manter a paz e a segurança”
em episódios em que estivessem envolvidas
potências com assento permanente em sua
mesa. O CS já impôs vários
“cessar fogo” nos entreveros árabo-israelenses,
mas em uma só ocasião conseguiu
mobilizar algum poder militar. E isso foi em 1950,
ao “legitimar” a intervenção
americana na Coréia, invadida pelos comunistas
do Norte e pelos chineses, o que só foi
viável porque o delegado soviético,
por uma gafe até hoje não esclarecida,
boicotava o Conselho a pretexto da mudança
da representação da China, recém-abocanhada
por Mao Dzedong. Os americanos se aproveitaram
dessa ausência do habitual veto russo para
organizar a Força onusiana, numa iniciativa
polêmica em termos estritamente legais face
ao texto preciso da Carta da ONU.
Dúzias de guerras e conflitos armados
ocorreram desde o fim da IIa Guerra Mundial, e
nenhum deles foi evitado pelo organismo internacional.
Ignorância, hipocrisia, mentira, demagogia
e muita propaganda tendenciosa são fatores
presentes na celeuma em torno do Afeganistão
e Iraque. Motivos os mais estapafúrdios
foram utilizados pela Esquerda/Direita ideológica
(usemos essa falsa dicotomia jacobina) para denunciar
a intervenção dos USA. Ora, a operação
dos EUA e seus aliados foi, mais provavelmente,
uma guerra preventiva - uma guerra como aquela
que, em 1937 ou 1938, poderia haver evitado o
cataclismo nazista se os europeus ocidentais houvessem
sido comandados por um líder do calibre
de Churchill.
No Oriente Médio, o de que os americanos
estão principalmente preocupados é
com o abastecimento regular do petróleo
da Arábia e Golfo Pérsico. Quando
Saddam Hussein ocupou o Kuwait e ameaçou
a Arábia Saudita, muitos analistas brasileiros,
ignorantes e ridiculamente contraditórios
à luz de seus próprios pressupostos,
porém obcecados pelas formas mais tolas
do sentimento anti-americano, não se deram
conta do desastre que teria sido para nosso próprio
país se o ditador iraquiano viesse a controlar
mais de 50% da produção mundial
do ouro negro. Os preços do barril disparariam.
O que nos custaria isso em termos de moeda forte
para importação, num país
onde ainda falta bastante para concretizar o slogan
de “o petróleo é nosso”,
não pode ser avaliado.
Imaginem o que o paranóico tirano pretenderia
se bafejado com sucesso em seu empreendimento
hitlerista, houvesse destruído Israel e
unificado as terras árabes em torno de
uma Bagdad renascida, capital de um novo “Califado”
islâmico!
Acresce que, na situação atual,
o panorama mundial do petróleo está
rapidamente mudando. A Rússia será
em breve a principal produtora, com auxílio
americano e desbancando a Arábia Saudita.
Novas tecnologias estão sendo rapidamente
desenvolvidas para substituir o carburante. A
energia nuclear está em vias de novo avanço,
como alternativa para a geração
elétrica. O uso do hidrogênio e de
métodos mistos (eletricidade-gasolina)
nos automóveis “híbridos”,
não está muito longe de se concretizar.
Além disso, quando e se por ventura o preço
do barril atingir e ultrapassar os US$40 dólares,
novas fontes energéticas se tornarão
economicamente viáveis como, por exemplo,
o álcool em mistura como no Brasil, e o
xisto betuminoso de que possuem os EUA e o Canadá
reservas praticamente infindáveis. Acredito
que os xeiques da família de Ibn Saud,
donos de 40% de toda a riqueza da Arábia,
assim como o sultão de Brunei, o homem
mais rico do mundo e proprietário de todo
o território desse pequeno Estado em Bornéu,
terão motivos para grande desapontamento...Todas
as especulações são possíveis.
No que diz respeito ao fato de que Bush Pai interrompeu
a Guerra do Golfo depois de libertar o Kuwait,
enquanto Bush Filho invadiu o Iraque e derrubou
Saddam, a charada continua, abrindo as portas
a todas as especulações da multidão.
Já se disse que a originalidade da Guerra
do Iraque é que terminou antes de que se
soubesse por que havia começado...Para
se entender a situação internacional
é necessário, de qualquer forma,
um conhecimento suficiente da história,
dos eventos do passado recente e mais distante,
e da complexidade dos relacionamentos entre as
potências ativas no jogo de poder. Em 1939
por exemplo, a Alemanha nazista e a Rússia
estalinista assinaram o acordo Molotov-Ribbentrop
que lhes facultou a partilha da Polônia,
a forçada integração dos
países bálticos à URSS, o
ataque russo à Finlândia - bem como
a possibilidade da Wehrmacht, oito meses depois,
conquistar a França e erguer contra a Inglaterra,
último bastião de liberdade na Europa,
uma ameaça que parecia mortal. Entretanto,
quando em meados de 1941 foi a URSS invadida,
Churchill, o mais tenaz líder conservador
britânico, imediatamente proporcionou apoio
integral a Stáline que Roosevelt reiterou.
Desencadeada para preservar a independência
da Polônia, a Guerra terminou com a integração
desse mesmo país ao Império comunista,
juntamente com toda a Europa oriental. Ao final,
foi a Europa democrática libertada pelos
americanos que, em 1945, dispunham da arma nuclear
absoluta, 50% do PIB mundial e doze milhões
de soldados em armas, o que não impediu,
diante da passividade isolacionista do rival,
primei ro Roosevelt e depois Truman, que em extraordinária
demonstração de gênio maquiavélico
Stáline, responsável de um maior
número de vítimas do que Hitler,
se apossasse da metade do continente. Sobre toda
área se ergueria, como novamente seria
Churchill o primeiro a se dar conta, uma pesada
“Cortina de Ferro”. Esta só
cairia 45 anos mais tarde, graças, novamente,
ao poder americano vitorioso na Guerra Fria, libertando
toda a Europa Oriental e a Rússia inclusive.
Se há, por conseguinte, uma nação
à qual deve o mundo a liberdade e a democracia,
essa nação, paradigma global, é
precisamente a América.
O declínio do império soviético
começou com a invasão do Afeganistão
em 1979 e terminou, após dez anos de fracasso
e um milhão de vítimas, com o abandono
da aventura. Durante todo esse tempo, jamais ouvi
falar em manifestações pacifistas
de protesto em qualquer cidade do mundo livre;
e nem mesmo o Papa, notório inimigo do
comunismo, fez qualquer declaração
a respeito do episódio. Os afegãos
haviam resistido com o armamento fornecido pelos
americanos. Osama bin Laden era um deles. A questão
do Afeganistão é interessante, na
perspectiva histórica, porque durante séculos
foi pomo de discórdia entre potências
européias principalmente interessadas na
Índia, cuja segurança terrestre
depende do planalto iraniano-afegão. Nesse
período, sempre se constituiu a Santa Rússia
tzarista em protetora dos cristãos, missão
que a URSS pretendeu herdar de protetora dos árabes.
No jogo complexo de equilíbrio de poder
esboçam-se alguns paradoxos surpreendentes
que muita gente ignorante, ingênua ou tendenciosa,
não consegue perceber. Saddam Hussein não
foi derrubado após a Guerra do Golfo porque
contrabalançava os fanáticos aiatolás
iranianos. No poder durante mais de 30 anos, esse
verdadeiro protótipo do gangster internacional
foi responsável por três guerras,
perdendo mais duas outras. A repressão
da minoria curda com gazes venenosos, a invasão
do Kuwait e o conflito com o Iran (1980/88) teriam
igualmente causado mais de um milhão de
mortes. Para resistir a Saddam e à superioridade
de seu armamento soviético, recorreram
os aiatolás, que haviam desmontado o exército
do Xá-in-Xá, a meios heróicos
como o de mandar batalhões de crianças
para explodir com os pés os campos de minas
- admirável de heróico engenho,
não acham? E não só Israel
alega haver destruído um reator nuclear
iraquiano em 1981 como leio, em obras de físicos
americanos publicadas na década passada,
sobre seus esforços para desenvolver a
arma atômica. O propósito de Saddam,
repito, teria sido recriar um sultanato árabe
naquela que foi a antiga metrópole do Islam,
Bagdad.
Incidentalmente, o último grande herói
da Jihad islâmica às Cruzadas não
foi um árabe, foi um curdo - o nobre e
valente Sultão Salah ud-din Yusuf, +1193:
Saladino reconquistou Jerusalém e cavalheirescamente
venceu Ricardo Coração de Leão,
rei da Inglaterra. Estas recordações
históricas parecem irrelevantes mas são
até hoje influentes na mente dos muçulmanos
que sonham com sua grandeza numa Guerra Santa
contra o Ocidente moderno.
O retorno da Escravidão
Neste ponto vale apontar para a circunstância
que, em outro aspecto sério da história
dos conflitos continentais, foi a Europa flagelada
pelo Islam. É costume entre os comentaristas
ignorantes, oriundos da Esquerda festiva, só
culpar os brancos pela escravidão negra.
Em encontro internacional de Durban, 2002, na
África do Sul, uma interminável
choradeira ressentida e mentirosa se elevou de
parte de árabes, africanos, asiáticos,
latino-americanos e alguns mal-inspirados ocidentais
contra as desgraças por eles sofridas com
a escravidão e o colonialismo.
A verdade histórica é que, se o
colonialismo europeu durou duzentos anos na Ásia
e apenas cem anos na África, a opressão
dos mahometanos sobre povos europeus na área
do Mediterrâneo e dos Bálcãs
se prolongou, repito, por quase mil anos. A Escravidão
clássica havia sido abolida no Ocidente
pelo Cristianismo após a desintegração
do Império romano. Brancos em sua imensa
maioria haviam sido os escravos na Grécia
e em Roma. A influência da Igreja católica
suprimiu a escravidão pessoal mas não
impediu a forma de servidão feudal, associada
à posse da terra, que persistiu durante
a Idade Média e até época
avançada em certas regiões da Europa
oriental e ocidental, assim como na América
Latina. Ora, a escravidão propriamente
dita foi re-introduzida no Ocidente pelos muçulmanos,
eis o fato pertinente.
As lutas entre árabes e turcos, assim
como contra os europeus, produziram a expansão
da instituição hedionda na América,
Norte e Sul, quando em 1517 foi pela primeira
vez autorizada o trabalho escravo de negros africanos
pelo Imperador Habsburgo Carlo V°. O primeiro
negro africano já aparecera na corte do
Infante Dom Henrique, o Navegador. Alguns livros
recentes sobre a Hidra de muitas Cabeças
- como The Many-Headed Hydra de Peter Linebaugh
e Marcus Rediker; e Slavery and Human Progress,
1984, do professor da Universidade de Yale David
Brian Davis - têm restabelecido a verdade
complexa da história dessa instituição
cujos principais promotores, durante toda a Idade
Média, foram os árabes, exatamente
os árabes. No entorno do Mediterrâneo
durante séculos, particularmente na Sicília,
Itália central, sul da França e
Catalunha, os corsários da África
do Norte efetuaram razias predatórias,
destinadas a abastecer os prósperos mercados
de escravos do Oriente.
A costa que vai do Marrocos à Líbia,
através da Argélia e Tunísia,
é habitada sobretudo por Bérberes
e passou a ser conhecida como a Costa da Barbaria
(Barbary Coast). O historiador Robert C. Davis
calcula que perto de um milhão de escravos
cristãos europeus foram levados para a
África do Norte entre o início do
século XVI e o fim do século XVII.
Em 1627 por exemplo, piratas muçulmanos
conseguiram alcançar a Islândia,
no Mar do Norte, de onde carregaram 400 residentes
locais. Em 1617, os corsários foram até
a ilha da Madeira, levando como vítimas
mais de mil portugueses dos dois sexos, flagelando
depois a Irlanda e a costa atlântica da
França. Marinheiros de barcos marcantes,
especialmente ingleses, eram os principais alvos
das gázuas (a palavra é árabe),
mas como resultado das guerras entre monarcas
cristãos e os Sultãos otomanos,
um número considerável de burgueses
e camponeses europeus foi seqüestrado, a
fim de satisfazer as exigências dos predadores
orientais. A Ordem dos Franciscanos dedicou uma
parcela ponderável de sua obra no sacrifício
de frades excepcionais que se ofereciam para substituir
cristãos escravizados na região,
a título de resgate. No século XIX,
foi o tráfico, finalmente, eliminado pela
intervenção militar dos ingleses
e franceses, acompanhados lodo depois por italianos
e espanhóis. Os marines americanos igualmente
participaram da repressão e, no hino da
sua corporação, ouvimos o versículo
From the Walls of Montezuma to the Shores of Trípoli,
celebrando o sucesso de sua expedição...
O papel da escravidão é muito extenso
e curioso, tendo sido pouco estudado. A escravidão
feminina desempenha enorme papel no fenômeno.
Os Sultãos otomanos tinham preferência
pelas belas circassianas da região do Cáucaso,
e tantos príncipes foram por elas gerados
que o próprio Sultão-Califa era
ocasionalmente designado como o Filho da Escrava.
Os Mamelucos, que constituíram várias
dinastias no Egito e no Oriente próximo,
eram soldados escravos assim como os Janízaros,
recrutados entre crianças cristãs
dos Bálcãs, que formaram a tropa
de elite da Sublime Porta.
Na colonização da América,
Norte e Sul, o florescimento da escravidão
africana foi assim uma conseqüência
indireta e uma imitação do exemplo
oferecido pelos árabes. Os traficantes
maometanos, aliás, entranhando-se pela
África ao sul do Sahara onde converteram
grande parte de sua população tribal
ao Islam, não só ali implantaram
a escravidão como se associaram aos portugueses
e outros europeus na expansão do tráfico.
É sabido que os milhões de negros
trazidos para o Brasil no período 1550/1850,
foram vendidos aos negreiros luso-brasileiros
por intermediários árabes e pelos
próprios régulos da “Costa”
da Guiné, Nigéria e Angola, tirando
proveito dos prisioneiros que faziam em suas incessantes
guerrilhas tribais. Entretanto, a expansão
do Corão se faz hoje, quase que exclusivamente,
nesse continente. Adicione-se ao quadro pouco
edificante, pouco conhecido e quase nunca admitido,
o fato que a escravidão ainda perdura na
África, nas mãos de árabes
e, quando em meados dos anos 50 servi na Missão
Permanente do Brasil junto à ONU, ainda
se discutia em todas as Assembléias Gerais
a necessidade de eliminar a vergonhosa instituição.
O Sudão é dominado por militares
muçulmanos do norte do país que
mantêm aceso o fogo da prática perversa.
O genocídio das populações
do Sul do Sudão é uma das máculas
do século e o espírito da escravidão,
em suma, um dos traços mais característicos
da sociedade islâmica que, nessa prática,
se habituou a vergar sob o chicote dos tiranos.
Mas não seria o trabalho escravo, na verdade,
o traço principal do totalitarismo? É
a este ponto crucial que pretendo chegar. O uso
que do trabalho forçado de milhões
de prisioneiros e condenados inocentes fizeram
Hitler e Stáline - o primeiro durante os
seis anos da Guerra, o segundo durante os trinta
de sua tirania - é testemunho perene e
exemplo detestável que as sociedades fechadas
apresentam para a humanidade livre. São
sociedades carcerárias de que o socialismo
soviético e o nacional-socialismo alemão
se tornaram paradigmas odiosos, conspurcando a
imagem da civilização no século
XX.
O Terrorismo Fundamentalista. Os Haxixim.
Muito se tem falado ultimamente sobre o fundamentalismo
islâmico que, espalhando-se pelo mundo,
provocou “conflitos de baixa intensidade”
no Afeganistão e Iraque, em torno do novo
fenômeno do terrorismo suicida. A leitura
da obra de Karen Armstrong, já acima mencionada,
muito contribui com valiosas informações
para o melhor entendimento da prática em
outros livros excepcionais no seu estilo sereno,
com riqueza analítica sobre diversos aspectos
do conflito religioso com a modernidade, Armstrong
cobre o Protestantismo americano, o Judaísmo
antigo e moderno e, naturalmente, o Islam desde
suas origens. Como explicação geral,
ela salienta a reação do formalismo
dogmático, inato na natureza humana, contra
as conseqüências atuais do Racionalismo
e do movimento da Iluminação (Aufklärung)
dos séculos XVII e XVIII que nos legou
a civilização liberal moderna.
Como explica o Aurélio, historicamente
a palavra assassino procede do termo que designava
os "comedores de haxixe" (uma espécie
de maconha), na Pérsia do século
XI. Configurando um ramo heterodoxo do Xiismo,
os haxixim pertenciam a uma seita ismaelita de
hereges fanáticos que se tornaram notáveis
por seu pendor e métodos homicidas. Eram
seguidores de um fanático, Hasan ibn-Sabbah
que, controlando fortalezas inexpugnáveis
em altas montanhas da Síria e Irã,
mataram em ataques suicidas o primeiro dos grandes
sultãos turcos seldjukidas, Alp Arslan,
seu Grão-Vizir e vários sucessivos
governantes. Eles haviam herdado do Xiismo ismailita,
com suas esperanças messiânicas,
uma crença extrema na obediência
cega ou submissão (Islam) à autoridade
divina, representada pelo líder político.
Na paixão e valor do sacrifício,
com recompensa final no paraíso de bem-aventurança
que o haxixe proporcionava, estavam fortemente
influenciados pelo maniqueísmo. Na versão
mais sofisticada do dualismo original da religião
persa, os maniqueus se proclamavam únicos
servos do verdadeiro Deus, defensores da Verdade
e do Bem e destinados a morrer numa "guerra
santa" contra todos os infiéis, cultores
de Satã - que seríamos todos nós,
os infiéis...
Conta-se que, em seu reduto montanhoso do Alamut,
Hasan construíra um jardim encantado, com
piscinas, vinho farto e alimento de banquete,
habitado por lindas huris sedutoras cuja virgindade
era renovada todas as manhãs, após
satisfazer os caprichos lúbricos do bronco
pastor do planalto. Para esse cenário edênico
levava seus jovens adeptos, semi-conscientes,
depois de droga-los com a semente. Passavam ali
alguns dias deliciosos e, acreditando haverem
de fato visitado o Paraíso de Allah, iam
voltar à realidade pelo mesmo processo.
No árido deserto, eram então informados
que ao paraíso poderiam retornar se jurassem
obediência cega às ordens de Hasan.
O assassinato servia ao chefão para suas
maquinações políticas, granjeando-lhe
com isso enorme poder, sem que as tropas e a polícia
do Sultão conseguissem eliminá-lo
- numa antecipação muito curiosa
do que é hoje representado pelo grupo Al
Kaida de Osama Bin Laden. Foi a contaminação
do Xiismo pelo dualismo iraniano, acoplada à
paixão suicida dos que desejam vingar a
morte de Hussein, o que explicaria a fúria
sanguinária dos sectários. O suicídio
em ato de terror homicida é um pequeno
preço a pagar pelo direito de alcançar
o paraíso e suas huris... Para uma gente
pobre, ignorante e desesperada em sua miséria,
assim como frustrada em seus impulsos sexuais
pelas estrituras draconianas que o Corão
impõe, a barganha valia a pena...
O recurso ao terrorismo suicida foi igualmente
utilizado contra os Cruzados que ocupavam bases
na Terra Santa. A seita perversa só foi
destruída pelos invasores mongóis,
200 anos depois, quando o Grande Khan e Xá-in-Xá
Hulägü, neto de Genghiz-khan e irmão
de Kublai, imperador da China, finalmente desmontou
suas últimas fortalezas nas montanhas.
Acontece que, havendo entrado em contato com os
Francos, neles inculcaram os métodos de
ação e as velhas crenças
do dualismo iraniano - o Deus do Bem, Ormudz,
sempre em luta contra o Deus do Mal Ahriman. A
Ordem dos Templários teria sido particularmente
afetada por sentimentos desse tipo e as práticas
secretas da seita. Depois de sua supressão
em princípios do século XIV, pelo
rei de França Philippe le Bel com aprovação
do Papa, diz-se que os Templários foram
sucedidos pela Maçonaria - numa simbiose
com a corporação dos arquitetos
das grandes catedrais góticas. O maniqueísmo
que contagiou certas heresias medievais, particularmente
os Búlgaros e os Albigenses do sul da França,
provocando uma sangrenta Cruzada repressiva, teria
tido, similarmente, sua origem nessa versão
iraniana do Islamismo xiita.
Naturalmente, os povos oriundos da Ásia
oriental, curdos, indianos, indonésios,
malaios ou turcos da Ásia Central e Turcomenistão
chinês que, nos mil anos de expansão
do Islam, se converteram à mensagem do
Profeta, não herdaram a mesma tendência
anti-ocidental porque seus inimigos mais próximos
eram pagãos ou asiáticos. Mas no
coração do Fundamentalismo islâmico
se acendeu o inextinguível rancor contra
a Europa de cultura clássica e tudo que
ela representa. Só podemos explicar o furor
irracional dos palestinos contra Israel porque
os judeus representam uma cunha ocidental encravada
no próprio âmago da terra sagrada
do Profeta. Os judeus foram traidores que ensinaram
a Mahomé tudo o que escreveu no Corão.
Recusaram, porém, a conversão que
este tão generosamente lhes oferecia -
pecado imperdoável. A posse da Esplanada
do Templo em Jerusalém é um símbolo
da feroz ambivalência em relação
à Cidade Santa das duas outras religiões
- isto embora o único título que
possam os Sarracenos apresentar sobre o local
seja a lenda fantástica que Mahomé
a visitou, montado no cavalo alado Burak, para
de Deus receber, através do Arcanjo Gabriel,
a Revelação junto ao canto da muralha
onde hoje se ergue a mesquita de El Aqsa. Mas
não são as Mil e Uma Noites a obra
de imaginação mais desvairada e
o que de mais eminente criou a literatura árabe?
Na Idade do Crime
Os dados históricos acima oferecidos procuram
dar uma explicação religiosa e psicológica
dos motivos pelos quais o Fundamentalismo islâmico
se transformou no mais perigoso adversário
do movimento de globalização econômica,
política e cultural que se registra no
novo milênio. Uma religião de cega
"submissão" ao ímpeto
assassino, como forma de cultuar a Verdade e eliminar
o “Grande Satã” da infidelidade
religiosa, não pode senão recorrer
a esse tipo particularmente covarde e nojento
de combate, o terrorismo.
Retornemos, por consequência, à instituição
peculiar da criminalidade suicida. Certo, o terrorismo
não é unicamente islâmico.
No cerne da cultura da esquerda jacobina romântica,
gerada por esse outro falso profeta paranóico
que foi Rousseau, está encravada a violência
como instrumento politico. La Terreur foi o produto
da rebordose revolucionária da França
de 1793. Tratava-se de purificar a Humanidade,
cortando a cabeça dos méchants,
dos ricos e poderosos aristocratas que oprimiam
os misérables, gerando uma cultura xiita,
propriamente ocidental. A ideologia totalitária
acompanha a evolução da democracia
pela mão esquerda, literalmente a mão
sinistra, de mau agouro, funesta e mortal, da
equação ideológica sob a
qual vivemos. O terrorismo sempre foi a arma predileta
do Estado absolutista revolucionário. Como
terrorismo religioso podemos julgar os métodos
usados pela Inquisição para suprimir
as heresias, tal qual ocorreu durante o período
das guerras de religião. Como terrorismo
estratégico, episódios como o massacre
de Nanking em 1938, perpetrado pelos japoneses.
Sobretudo agora que o poderoso suporte geopolítico
que sustentava o totalitarismo, a URSS, desmoronou
de uma maneira menos ruidosa do que o World Trade
Center, porém com contrachoques bem mais
consideráveis - devemos contar com a presença
crescente de minorias de agitados, frustrados
e insatisfeitos, capazes de qualquer brutalidade,
qualquer selvageria e qualquer mentira na perseguição,
a todo custo, da utopia de paz, amor e justiça,
dita “social”.
Terrorismo com dinamite, gazes venenosos e, eventualmente,
armas biológicas, antraz, um dia talvez
a varíola, o que estamos descobrindo é
o matador energúmeno que implora a assistência
de Allah. O mundo saiu da Idade das Guerras para
penetrar na Idade do Crime: Hezbollah e Fatah
na Palestina; Taliban e Al Qaida no Afeganistão
-mas também IRA na Irlanda, ETA na Espanha,
FARC na Colômbia, Brigadas Vermelhas (Brigate
Rosse) na Itália, Facção
Rubra na Alemanha, Sendero Luminoso no Peru, Montoneros
na Argentina, Tupamaros no Uruguai, Che Guevara
em Cuba e Bolívia - sem esquecer, no Brasil,
os asseclas do Marighela e Lamarca, arregimentados
num inacreditável número de grupelho
que o Exército desbaratou na década
de 70, mas foram consagrados pela Imprensa, o
Congresso e a Igreja como vítimas e heróis
nas décadas seguintes (cabendo, a propósito,
a leitura do livro A Grande Mentira, do general
Aguinaldo Del Nero, Edit. Biblioteca do Exército).
O marketing é preparado pelo terrorismo
da desinformação, quando vemos uma
locutora da TV Cultura fazer a apologia da destruição
do WTC, sugerindo que o "Grande Satã"
está em declínio, eis que não
consegue nem mesmo defender o coração
do poder financeiro e militar capitalista; ou
quando um mentiroso contumaz com ares de profeta,
que se apresenta como o maior “teólogo”
ou “ecólogo” brasileiro, lamenta
só dois, e não duas dúzias
de aviões tenham atacado Nova York em setembro
de 2001; ou, ainda, quando o reputado “grande
economista” Celso Furtado, atribui o ataque
às Torres Gêmeas à própria
“extrema-direita” americana. Afinal
de contas, vinte anos atrás, um propagandista
da antiga DDR, o pseudo-Estado que representava
a parte da Alemanha oriental ocupada pelo exército
soviético, conseguiu difundir por todo
o planeta a versão de que o vírus
HIV havia sido uma criação deliberada
do Pentágono com o propósito de
reduzir a explosão demográfica no
Terceiro Mundo... Isso tudo dá uma idéia,
aliás, do tipo de dezinformatsyia que a
educação pública está
fornecendo à juventude brasileira, exultando
com o “golpe mortal" dado ao capitalismo
norte-americano...
Em suma, os terroristas haxixim foram os primeiros
a descobrir o uso letal do seqüestro de aviões
como arma de guerra. E vale recordar a quase simpatia
com que foram acolhidos, nos anos 60, os primeiros
casos registrados em aparelhos da ELAL israelense,
vitimados pelo método de inominável
covardia. Lembro-me do sucesso que uma tal de
Leila Khaled, ativista palestina, granjeou na
época junto à imprensa internacional,
transformando-se numa espécie de estrela
de cinema ou modelo de moda. A aviação
é, de fato, extremamente vulnerável.
Foi necessária a tragédia de 11
de setembro 2001 para que, finalmente, procurassem
as autoridades das principais potências
aéreas deter o alastramento contagioso
da enfermidade pela imposição de
contra-medidas adequadas de proteção
das aeronaves. A aviação, cujo desenvolvimento
se deu principalmente nos EUA, é um símbolo
supremo da globalização pela facilidade
e rapidez que concede à intercomunicação
humana e, por isso exatamente, alvo preferido
dos inimigos da Sociedade Aberta
Duelo Ao Meio-Dia
A democracia liberal sofre, infelizmente, de
sua própria natureza tolerante. A impunidade
é confundida com "direitos humanos".
A explosão de criminalidade resulta do
próprio bom-mocismo governamental, sendo
regularmente interpretada como resultante, não
da perversidade do criminoso, mas de vários
álibis sociais e da responsabilidade da
polícia, considerada como mero guarda-costas
dos ricos. Aqui mesmo no Brasil, vários
Ministros da Justiça e muitos dos Secretários
de Segurança se esmeraram na invocação
do álibi. Todo o Mundo Livre sofre do mal.
A imprevidência e as falhas na segurança
do transporte aérea demonstram que, se
as autoridades americanas foram apanhadas "descalças"
(with their pants down...), certamente se evidencia
que a culpa é do comodismo de uma próspera
e pacífica população que
jamais conheceu qualquer perigo ou invasão
estrangeira, desde a guerra de 1812 contra a Grã-Bretanha.
Digam-me, caros leitores, como nos sentiríamos,
os brasileiros, se um evento do mesmo estilo ocorresse,
digamos, no Rio de Janeiro, no Maracanã
repleto em dia de campeonato? Como reagiria a
opinião pública e o governo de Brasília?
Seríamos “arrogantes e vingativos”
em face do desafio? No caso dos americanos, tenho
a idéia de um paradigma. Num filme de 1982
ganhador do Oscar, High Noon, Gary Cooper é
um xerife (xerife no sentido inglês, e não
mourisco do termo) que, motivado por sua responsabilidade
moral e solitário sob o sol do meio dia,
enfrenta um bando de criminosos assaltantes. Estou
convencido que, na famosa “ética
protestante” weberiana definidora dos anglo-saxões,
especialmente do pessoal do Midwest, se destaca
a figura do mocinho que, impávido, mantém
a ordem e o “estado de direito” contra
bandidos bem armados. É evidente que muito
mudou na moderna sociedade americana. O velho
paradigma mítico todavia permanece, evidenciado
em ocasiões sérias ou conjunturas
inéditas como a atual - quando o indigitado
“gringo arrogante” se comporta como
o general Colin Powell que, em Johannesburgo,
se manteve calado e tranquilo ao ser recebido
com apupos por aqueles mesmos africanos que não
morreram de fome graças aos alimentos transgênicos,
generosamente doados pelos USA. Os franceses não
perdoam aos americanos terem sido por eles duas
vezes salvos dos alemães, em 1917 e 1944.
Os alemães, ex-nazistas, não terem
sido liquidados mas ajudados a se re-erguer pelo
Plano Marshall, de tal forma que, em 1952, sete
anos depois da derrota - seu PIB já alcançara
o de antes da guerra. E a Europa da CE, que já
se considera uma “super-potência”
de PIB equivalente ao americano, não lhes
perdoa sua própria incapacidade de punir,
sozinha, a sangrenta “limpeza étnica”
promovida pelos sérvios de Milosevitch
na Croácia, Bósnia e Kôssovo.
Usando exclusivamente a arma aérea, foram
de fato os ianques que, pela primeira vez na história
militar, venceram uma guerra sem perder um único
soldado - diga-se que em franca demonstração
de sua presunção. Diante de tais
aberrações, não é
de surpreender que se sintam os ianques justificados
quando descobrem que o suposto toma-lá-dá-cá
da diplomacia é um trânsito de sentido
único. O mocinho às vezes se zanga
no tiroteio à plena luz do meio-dia. Dado,
no entanto, o temperamento frio e introvertido
de xerife do Midwest ele estará disposto
a arriscar o duelo e tirar a desforra, sem grande
alarde. O arquétipo do mito nacional indica
que ele mataria o vilão e se casaria com
a mocinha...
Não foi isso, contudo, o que anteciparam
nossos grandes “expertos” em assuntos
internacionais. O ressentimento é a reação
normal dos inferiores, medíocres, frustrados
ou azarentos. Ninguém melhor do que Nietzsche
analisou essa disposição humana,
constituindo tal análise, provavelmente,
sua maior contribuição à
filosofia ética. O ensaísta e prestigioso
jornalista francês, Jean-Fraçois
Revel, lançous recentemente um bestseller,
A Obsessão Anti-Americana (trad. Edit.
UniverCidade), em que aplica ironica e admiravelmente
esses conceitos de ressentimento e projeção
de complexos de inferioridade aos europeus, frustrados
pela perda de sua hegemonia mundial. A reação
é universal e muito explica do Fundamentalismo,
assim como da aliança paradoxal com o esquerdismo
endêmico dos “intelectuários”.
Alguns auto-denominados “analistas políticos”,
notáveis por sua miopia, entre os quais
um freqüentador assíduo da Embaixada
dos Estados Unidos em Brasília, achou que
os “mercenárioos” americanos
seriam derrotados pelo “patriotas”
do quarto ou quinto mais poderoso exército
do mundo, comandado pelo gênio estratégico
do Saddam Hussein. Outro, austero e compenetrado
locutor político da TV-Band opinou que,
abandonado por seus aliados pouco inclinados a
se meter em encrenca quando em jogo o preço
do petróleo, os USA se perderiam nas areias
do deserto, nelas afundando como num novo Vietnam!
Outros, mais imaginativos, descreveream cenários
horrendos de bombas sujas, gás sarin, epidemia,
aviões suicidas se despencando sobre a
ponte da Golden Gate ou causando um desastre ecológico,
tipo Chernobyl, ao explodir uma central nuclear
em Ohio. Seria o Apocalipse de uma Terceira Guerra
Mundial contra o Islam inteiro, um bilhão
de seres fanatizados pelo Allahu Akbar! Certo,
porém, estive quando julguei que o texano
desejava apenas re-personificar Gary Cooper e
antecipei corretamente o desfecho. Durante alguns
meses ouvimos as alegações mais
absurdas veiculadas nos jornais e TVs mas, curiosamente,
uma das fontes principais das opiniões
e boatos maliciosos se encontrava no próprio
USA onde encapuçados pseudo-pacifistas,
“liberals” do Partido Democrático,
midia como o NY Times e o Washington Post, e os
eternos resmungões neurastênicos
da turma do “culpe logo a América”
(blame America first) nunca perdem a ocasião
de atribuir a “forças ocultas”
existentes em sua livre sociedade cosmopolita,
a responsabilidade por todos os dramas do cenário
internacional. Mas a rapidez estupenda e esmagadora
da intervenção militar aliada contra
Bagdad, vitoriosa em três semanas, deixou
os obsessivos pessimistas, niilistas e anti-americanos
em posição vexatória. Na
tempestade de areia no deserto, mal enxergaram
a realidade. Foram desmontadas suas ridículas
antecipações e desmentidos os argumentos
tolos, usados para denunciar o arrazoado da expedição.
As alegações provêm de um
misto de ignorância, ressentimentos, xenofobia,
preconceitos ideológicos, masoquismo romântico
e desinformação deliberada. A ousadia
revelada nas manifestações de rua,
porém, nos surpreendeu com a impressão
de um vigoroso movimento mundial contra o suposto
“imperialismo” brutal e tapado, da
atual administração em Washington.
Vejam o mito do petróleo. Sua banalidade
encobre um paradoxo pois o de que se tratou foi,
precisamente, de evitar que Saddam estendesse
seu poder sobre a maior parte do Oriente Médio.
Se viesse a controlar os preços de mais
de 50% da produção mundial, no Kuwait,
Arábia Saudita e Iraque, o ditador poderia
elevá-los a um nível que afetaria
TODA a economia mundial, criando um novo “choque”
como os das décadas 70/80. A exploração
dos poços iraquianos estava também
na mira de franceses e russos, o que dá
para explicar a posição de Chirac
e Putin nessa confusão. Mas ouvimos outros
ridículos protestos, inclusive sobre a
intenção dos EEUU de, simplesmente,
dominar todo o Oriente Médio em proveito
de seu estado satélite, Israel. Anteciparam
o colapso da ONU como resultado da “estupidez”
do Presidente Bush, ou vislumbraram um ominoso
rompimento entre a América e a Europa.
No que diz respeito às operações
militares, outros sábios profetas de algibeira
anteviram um novo Vietnam, uma resistência
heróica no estilo de Stalingrado, uma guerrilha
interminável e desgastante, vaticinando
o levante geral dos muçulmanos em jihad
apocalíptica de consequências imprevisíveis.
Ora, o que ocorreu foi exatamente o contrário,
um fiasco. Os árabes vizinhos não
se mexeram. As divisões da Guarda Republicana
evaporaram. A população acolheu
os aliados como libertadores. Na metade do tempo,
vinte dias, com a metade dos efetivos empenhados
(250 mil contra meio milhão), um diminuto
número de baixas tanto entre as tropas
da coalizão quanto nas fileiras do adversário,
e menos da metade de vítimas civis, George
W. realizou o que, na Guerra do Golfo de 91, Bush
Pai conseguiu para a libertação
do pequeno Kuwait.
Como explicar então a explosão
de imbecilidade coletiva, nas arruaças
pseudo-pacifistas? O Premier italiano Berlusconi
acentuou que as manifestações da
mentira organizada constituíram uma “blasfêmia
contra a paz”, com suas bandeiras “manchadas
com o sangue de cem milhões de inocentes”.
Se não podemos analisar as ocorrências
em termos de esquerda X direita (Chirac é
de “direita”, enquanto Blair, líder
de um partido “trabalhista”), não
há dúvida que a rede mobilizada
pela Internet no mundo ocidental, assim como as
encomendadas pelos mandarins de Beidjing e islamitas
da Indonésia e Malásia, foi organizada
por figuras-chaves da esquerda internacional.
O Brasil e os Árabes
Durante quarenta anos raciocinamos em termos
do paradigma da dupla polaridade e quando se descobriu
que a URSS era um gigante com pés de barro,
uma falsa superpotência com sua economia
socialista periclitante, procuraram os observadores
e ativistas da Esquerda Festiva, atônitos,
novos modelos de convivência. Com palavras
que melhor não as houvesse pronunciado,
um Chanceler brasileiro chegou a lamentar o ocorrido
em 1989, o fim da Guerra Fria, obedecendo à
convicção subliminar que o Brasil
ia perder a oportunidade de prosseguir em seu
joguinho barato de chantagem, definido como “Terceiro
Mundismo”, em vigor desde a Presidência
Geisel, senão desde a Operação
Pan-Americana de Juscelino Kubitschek. O truque
consistia em pedir dinheiro emprestado a Washington,
sob ameaça de nos passarmos com armas e
bagagem para o lado dos Soviéticos.
A chantagem é, entretanto, um estratagema
diplomático que não mais funciona.
O programa dessa diplomacia de estilo “maquiavelismo
dos pobres” caiu por terra, para nós
como para outros “idiotas latino-americanos”,
africanos, asiáticos e mesmo europeus.
Desde a administração Geisel, executada
no Itamaraty pelo chanceler Silveira há
quase 30 anos, que a receita de “salvação
nacional” para os terceiro-mundistas têm
sido o alinhamento com os árabes para deles
obterem fantásticos investimentos em petrodólares
- eis que tinha sido o Brasil um de seus principais
clientes na compra justamente de petróleo.
Por enquanto, a política só nos
tem causado, particularmente no Iraque, dezenas
de bilhões de dólares de prejuízo.
Durante alguns anos falou-se muito no Japão
cuja economia parecia desbancar a americana. Vã
ilusão! Surgiu depois a alternativa da
China, salvo que Deng Xiaoping aderiu ao capitalismo
e criou as “zonas especiais” com vibrante
economia de mercado competitivo- segundo a fórmula
“Uma Nação, Dois Sistemas”.
No momento, parece que o interesse, tanto de Beidjing
quanto de Washington, consiste em reforçar
seu relacionamento comercial e econômico,
no quadro da Organização Mundial
de Comércio, WTO, do que entrar em “choque
civilizacional”.
Na região do Oriente Médio entretanto,
os ânimos estão a tal ponto exaltados
que existe enorme dificuldade em analisar qualquer
situação militar, geopolítica
ou econômica, em termos frios e objetivos.
Frieza, objetividade e imparcialidade é,
exatamente, o que está faltando tanto do
lado dos imediatamente interessados, judeus e
palestinos, ou, em termos mais largos, americanos
e árabes, quanto daqueles a quem cabe exercer
o árduo e inconfortável papel do
tradicional "deixa disso!" e de todos
aqueles que ainda dependem das importação
do combustível. Interferir numa briga de
bêbados não é cômodo.
Pior ainda, numa querela em torno de questões
religiosas. A paixão irascível é
contagiosa. Fui embaixador em Israel de 1967 a
1970 e tenho a experiência dessas querelas,
assim como uma posição tomada, de
tristeza e ceticismo ante a interminável
vendeta. É com enorme dificuldade, todavia,
que procuro manter-me equilibrado e objetivo ante
o espetáculo do desencadeamento de intratáveis
paixões homicidas, terrorismo, fanatismos
religiosos condimentados de nacionalismo, ambições
territoriais, intrigas complexas e jogo constante
de alianças...
A situação é agravada pela
guinada que a diplomacia brasileira deu, há
30 anos, sob influência de vários
chefes da Casa a que pertenci. Um desses eminentes
cavalheiros já influenciava os lances de
nossa política externa como embaixador
em Genebra, ao final dos anos 60, antes mesmo
de eu embarcar para Tel-Aviv. Tornou-se posteriormente
o líder inconteste do "terceiro-mundismo"
como Chanceler de Geisel e, através de
seu sonolento sucessor, ao tempo de Figueiredo.
A grande cartada consistia em pretender desviar
para o Brasil os investimentos em petrodólares
dos xeiques árabes, acumulados de forma
gigantesca após as duas crises nas décadas
1970/80. Mas, em vez de nos locupletarmos com
o tesouro de Ali Babá, foi o Brasil que
investiu pesadamente na região, particularmente
no Iraque.
Como não era Bagdá um posto de
tout repos, foi esnobado pelo diplomatas de carreira
e, por longos anos, entregue a um general reformado,
amigo do Presidente. Esse militar criou fortes
laços de amizade com o tirano local - o
mesmo que ainda hoje governa a nação
infeliz. O coleguismo da farda valia mais do que
a experiência da carrière. Embraer,
Petrobrás, Mendes Júnior, Engesa,
Avibrás e não sei mais que empresa
brasileira se dedicaram, com o maior afinco, a
cavar poços, construir ferrovias, abrir
estradas, fornecer tecnologia de míssil,
vender caminhões, blindados, matéria
prima nuclear e, ao fim, desenvolver por algumas
centenas de milhões de dólares um
tanque pesado. O famoso Osório foi especialmente
concebido - não para combater nas coxilhas
gaúchas então ameaçadas,
segundo alguns pessimistas, pela megalomania paranóica
de generais e almirantes argentinos, mas para
enfrentar tanques israelenses e ianques nas areias
do deserto. De tudo isso resultou uma verdadeira
estória fantástica das "1001
Noites". Para encurtar: bilhões de
dólares brasileiríssimos foram engolidos
à fonds perdus nas ditas areias movediças.
As duas últimas empresas mencionadas faliram
e duas outras quase levaram o diabo. A Petrobrás
perdeu sua "província pioneira mais
rica do mundo", perto de Mossul, enquanto
os sauditas preferiram, com razões de sobra,
investir no mais moderno tanque americano Abrams.
De tudo sobrou, porém, uma sombra tenaz
de simpatia por Saddam Hussein: há um quê
de masoquismo no caráter do Estado brasileiro...
Ora, segundo fontes israelenses e a opinião
de alguns colegas mais sutis que serviram na área,
era Saddam o mais pérfido, astuto e inexorável
de todos os mafiosos que governam o Oriente Médio.
O velho Bush não o quis derrubar na Guerra
do Golfo, para mantê-lo como reserva de
mercado "sunita", frente a qualquer
agravamento da histeria "xiita" no planalto
iraniano. O "Eixo do Mal" do jovem George
W. abarca hoje, conjuntamente, Iraque e Irã.
Aparentemente, os EUA possuem provas de que Saddam
não só renascera das cinzas de 1991,
como verdadeiro Fênix, mas estava determinado
a encabeçar uma coalizão anti-israelense
com armas químicas e biológicas,
do tipo já utilizado contra os curdos,
os xiitas da baixa Mesopotânia e na guerra
contra o Irã de 1980/82 - conflito este
que teria causado mais de meio milhão de
baixas. O arrazoado me parece haver sido de evitar
a criação de uma espécie
de novo Califado de Bagdad, munido de armas químicas
e possivelmente nucleares, que se apoderaria de
todo o petróleo do Oriente Médio
e seria suficientemente poderoso, após
absorver duas dúzias de pequenos emirados
vizinhos, além da Arábia Saudita
- para enfrentar e destruir Israel. Mas, como
disse, talvez não seja eu a pessoa adequada
para julgar imparcialmente entre a sorte de Israel
e a do Iraque, entre Sharon e Saddam Hussein,
ou entre este e Bin-Laden... Que o Alla´hu
Akbar me venha em socorro e me proporcione uma
lâmpada de Aladim na tenebrosa escuridão
que cobre todas as intrigas e negociações
diplomáticas, de excepcional fertilidade
naquela área.
O Islam e a Revolução Sexual
Levantemos agora uma nova cortina, entre as pesadas
que cobrem a tenda onde se esconde o objeto de
nossa pesquisa histórica e sociológica
- ao lembrar os versos famosos de Omar Khayyam:
Há uma porta cuja chave não
possuo
Há um véu através do qual
nada posso ver
Particularmente relevante em qualquer abordagem
da globalização é a resistência
que encontra a Revolução sexual
moderna no Terceiro Mundo, com especial acuidade
na área da sociedade islâmica, essencialmente
patriarcal e machista. Trata-se de um grave e
interessante problema sobre o qual agora nos debruçamos.
Ilustra-o um pequeno episódio, bem sintomático
e relacionado com o fundamentalismo puritano xiita
dos aiatolás iranianos. Foi em princípios
de 1978 que um incidente, no cinema de uma cidade
do interior, Tabriz, em dia de feriado religioso,
serviu de centelha para desencadear a chamada
“Revolução iraniana”.
Exibia-se um filme americano. A fita comportava,
como de costume, uma cena de beijo hollywoodiano.
Ora, tal ato é considerado obsceno pelos
muçulmanos se praticado entre homem e mulher,
à luz do dia e em local público,
ao passo que o beijo na boca entre homens é
tido como perfeitamente normal. Atiçada
por ulemas xiitas, uma multidão enfurecida
atacou e incendiou a sala de espetáculo,
carbonizando a maior parte dos espectadores, quase
uma centena, e a partir da tragédia, de
grande sensação em todo o país,
a violência se foi alastrando, como uma
infecção maligna, até engolfa-lo,
derrubando o Xá-in-Xá e levando
ao poder o regime fundamentalista, estritamente
reacionário, do aiatolá Ruhollah
Khomeini.
O fosso entre as práticas ocidentais de
crescente liberdade sexual, hoje universalizadas,
e os costumes medievais dos Fundamentalistas pode
ser ilustrado por dois livros publicados em França
pelo aiatolá, na época em que lá
se encontrava em exílio. Traduzidos para
o francês, foram publicados pelas edições
Libres-Hallier, em Paris. O formalismo legalístico
da religião de Mahomé, mesmo em
assuntos íntimos como a maneira como se
deve urinar e defecar, atinge a extremos que nos
parecem francamente patológicos. Seu puritanismo
inclui a proibição de contacto direto
com a urina, os excrementos, o esperma, o sangue,
os restos de um cadáver, a pele de homens
e mulheres não-muçulmanos, bebidas
alcoólicas e o suor de um camelo. As proibições
podem tornar compulsiva a vida de um fiel obediente
a todos os mandamentos corânicos. As abluções
necessárias após um ato de sodomia
com um homem são meticulosamente descritas,
não existindo contudo, ao que parece, proibição
explícita de tal prática. As relações
conjugais são também pormenorizadamente
reguladas. Em outras regiões retardatárias,
um montão de regras pormenorizadas determina
o comportamento sexual no que diz respeito, por
exemplo, à extensão da parte do
pênis que pode penetrar na vagina durante
o período de jejum do Ramadã.
Não obstante esses tabus absurdos, o Corão
permite, segundo consta, uma forma de "casamento
temporário" com uma mulher, cristã
ou judia, o que naturalmente muito facilita as
coisas... O que nos parece mais estranho é
a postura no que diz respeito à bestialidade.
Permissão é dada aos homens, mas
não às mulheres, de praticarem atos
libidinosos com animais, contanto que bichos do
sexo feminino. "Não é recomendado
ter relações com animais selvagens,
especialmente com uma leoa"... Mas o chuque-chuque
com animais domésticos é visto com
tolerância. A ninguém é permitido
olhar, diretamente, para a genitália de
outra pessoa, salvo marido e mulher, de tal maneira
que um médico ginecologista só pode
examinar a paciente através de um espelho.
Na China antiga imperava igual proibição,
de maneira que os profissionais eram obrigados
a examinar as doentes através de uma boneca
de marfim onde a mulher indicava as partes em
que sentia alguma dor.
Os excessos mais tenebrosos da reação
puritana se manifestaram no Afeganistão
sob o regime absolutista do Taliban. Essa milícia
guerrilheira ultra-ortodoxa determinava compulsoriamente
o corte do cabelo das mulheres e o crescimento
da barba dos homens, reduzindo as primeiras a
um estado próximo da escravidão.
Proibidas de andar nas ruas sem um horrendo véu
ou espécie de saco que as cobre da cabeça
aos pés, e igualmente proibidas de dirigirem
automóveis, de exercerem qualquer profissão
e de freqüentarem escolas ou universidades,
as infelizes sofriam de tratamento inferior ao
dos homens nos hospitais. Não podiam ser
médicas, nem enfermeiras. As adúlteras
eram apedrejadas até a morte. Li a história
horrenda de uma infeliz criatura que, lapidada,
foi levada como morta para o cemitério
onde o coveiro percebeu que ainda respirava. Foi
então tratada num hospital, curada, reconduzida
à praça pública e novamente
supliciada. Assisti na TV a um documentário
da execução de uma mulher com um
tiro na cabeça, como espetáculo
popular num estádio de futebol transformado
em palco de exibição das atividades
da polícia secreta. Esta era órgão
do “Ministério da Defesa da Virtude
e Perseguição do Vício”,
num cenário francamente orwelliano. Em
princípios do século XXI, é
o retorno ao pior obscurantismo da Alta Idade-Média.
Poucas vezes um regime totalitário entrou
em tão revoltantes exageros no controle
do comportamento individual.
É verdade que, na Idade Média,
os teólogos e Santos Padres da Igreja também
entravam em detalhes escabrosos sobre o comportamento
sexual dos fiéis como, por exemplo, sobre
quais as posições lícitas
e ilícitas para o ato sexual, ou se era
ou não pecado praticar o coito nas vésperas
da Sexta-feira Santa. Em pleno século XVII,
Pascal manteve uma polêmica azeda com um
padre jesuíta porque este havia autorizado
uma jovem marquesa, dama de companhia na corte
de Luís XIII, a ir a um baile após
haver comungado pela manhã. A "posição
missionária" foi ensinada pelos catequizadores
protestantes aos natives da África e Polinésia
cujas mulheres foram obrigadas a vestir saias
e cobrir o peito. Mas nenhum desses clérigos
impingiu suas proibições com a meticulosidade
fanática e psicopática dos aiatolás
que, afinal de contas, estão escrevendo
e governando em pleno século XXI, numa
das nações mais civilizadas e cultas
da antiguidade. As considerações
acima me fazem lembrar os versos famosos de Lucrécio,
tantum religio potuit suadere malorum - "a
tantos males pode a religião conduzir"...
Que se leve em consideração, no
entanto, que no período do apogeu de sua
civilização, quando a Europa ainda
mergulhava nas sombras mais espessas da Idade
Média, a sociedade árabe em Bagdad
ou em El Andaluz deve ter sido uma sociedade sexualmente
bastante livre e hedonística, tal qual
testemunham os versos de Omar Khayyâm e
obras como “As Mil e Uma Noites" e
"O Jardim Perfumado" que, no século
XIX, ao Ocidente foram reveladas por esse extraordinário
aventureiro, explorador, escritor, poliglota e
diplomata que foi Sir Richard Burton (+1890).
Homem de muitos talentos que contribuiu para a
descoberta das nascentes do Nilo e do lago Victoria,
e foi o primeiro europeu a entrar (disfarçado)
na Meca, desempenhou Burton um papel importante
ao transmitir ao Ocidente o gosto pelo erotismo
oriental - da Índia e do Islam. Desprovido
de preconceitos, foi uma espécie de “superhomem”
nietzscheano no sentido que efetuou uma “transmutação
de todos os valores” contra a moral vitoriana,
podendo ser considerado o pioneiro do tropicalismo
e orientalismo inerentes à Revolução
sexual.
Sociedade sensual e exótica, sem dúvida,
mas sempre sob domínio do homem, o machismo
do Islam estaria, possivelmente, associado ao
caráter historicamente despótico
do poder político nos Estados sarracenos.
Relutando, como salientamos acima, em aceitar
as concepções democráticas
sobre os direitos e liberdades civis, e desconhecendo
as estritas regras políticas que disciplinavam
as antigas monarquias da Europa - com o controle
moral mais ou menos rígido do comportamento
dos autocratas pela Igreja - os reinos muçulmanos
facilmente degeneravam para o autoritarismo carcerário
mais draconiano. A política do capricho
do soberano estendeu-se, então, para o
terreno do sexo. Mulay Ismail (+1727), um Sultão
do Marrocos conhecido como “o Sangrento”,
parece haver sido aquele que levou seus impulsos
libidinosos às últimas consequências.
Ele teria reconhecido 888 herdeiros vivos, dos
mil e tantos que gerou. A cifra estaria registrada
no Guiness, certamente um record. Mas a política
de dominar uma nação promovendo
filhos, sobrinhos, primos, genros e outros parentes
a todos os postos da administração
tem sido seguida por outras dinastias, como a
da Arábia Saudita com seus príncipes
petroleiros. É o despotismo elevado à
última potência, um Patrimonialismo
Selvagem. Na América do Sul, um caudilho
venezuelano, Juan Vicente Gomez (+1935), pôs
em prática método semelhante de
domínio, de tal modo que quase todos os
generais, ministros, governadores de estados,
chefes de polícia e embaixadores eram membros
da família do ditador.
Devemos, em tal contexto, salientar as circunstâncias
e o papel desempenhado pela imagem cinematográfica
de efeito universal. Os muçulmanos fundamentalistas
declararam guerra ao cinema ocidental e os guerrilheiros
do Afeganistão queimam as películas
e destroem as máquinas fotográficas
onde quer que as encontrem. Todos eles costumam
reagir vigorosamente contra o que consideram as
atitudes escandalosas dos ocidentais em relação
ao sexo. Recordo a surpresa que tive ao ouvir
de um colega, diplomata de uma nação
muçulmana moderna e ele próprio
indivíduo culto e bastante sofisticado,
a manifestação de repúdio
e colérica indignação com
o espetáculo “escandaloso”
de mulheres que, no verão parisiense, se
exibem topless às margens do rio Sena.
Eminentemente privado, a revelação
do ato sexual constitui uma blasfêmia inominável
e intolerável à lei de Allah. Se
mesmo o ato de urinar comporta privacidade, o
que dizer da fornicação! É
como se o segredo da omertà masculina houvesse
sido traído. Hoje em dia, em alguns países
como o próprio Iran e a Arábia Saudita,
esta governada pela dinastia sunita fortemente
puritana de Ibn Saud, é proibido o uso
de antenas parabólicas, assim como a importação
ou funcionamento de aparelhos de TV ou vídeo.
As telas dos televisores, como explica uma das
autoridades locais, apresentam "programas
ocidentais caracterizados por atitudes profanas"...
"com todo tipo de maldade e corrupção".
Mais do que o cinema no entanto, a tecnologia
da Televisão e da Internet vai superando
as barreiras nacionais e suas alfândegas,
num desafio que o Fundamentalismo dificilmente
conseguirá coibir.
O harem (em árabe hárim, significando
"proibido") e o que, na Índia,
é conhecido como purdah (cortina), o que
quer dizer, a segregação das mulheres,
assim como a obrigação do porte
do véu e a poligamia, são velhas
e sólidas instituições que
configuram uma antiga herança semítica,
com influências iranianas. Foram introduzidas
por Mahomé no Corão. É possível
que a experiência histórica de invasões
estrangeiras e guerras civis, quando o estupro
das mulheres dos vencidos se tornava habitual,
haja estimulado o costume vexatório. A
história da Índia setentrional é
particularmente sangrenta e atingiu com fúria
singular as mulheres e crianças. Tamerlão
(Timur Lenk)teria erguido meio milhão de
crânios numa pirâmide, após
sua conquista de Delhi (1399). A selvageria dos
déspotas de Delhi, quase todos procedentes
do Afeganistão, não possui paralelo
na história mundial. Foi a influência
muçulmana que alastrou o purdah, pois este
não existia anteriormente às invasões
procedentes da fronteira do Noroeste - quando
as mulheres gozavam de grande liberdade e andavam
seminuas, tal como figuram na sua estatuária
antiga.
A prática generalizada da violência
sexual em ocasião de conflito bélico
persiste no Oriente, tanto quanto no Ocidente.
Nas diversas guerras civis do Afeganistão,
nas guerras que opuseram a Índia e o Paquistão,
assim como por ocasião da guerra de Independência
do Bangladesh em 1971, as tropas paquistanenses
e indianas utilizaram largamente esse método
de aterrorizar a população, por
simples sadismo ou para fins de genocídio.
O mesmo ocorreu durante os vários episódios
de “limpeza étnica” registrados
na Bósnia, no processo de desintegração
da Iugoslávia. Para ilustração
de como as mulheres foram vitimadas pela violência
sanguinária neste século de genocídios,
guerras totais e totalitarismos assassinos, inspirados
por ideologias inimigas da Sociedade Aberta, vide
a obra Death by Government, o último dos
quatro estudos do professor R.J. Rummel (New-Brunswick,
1997), O cálculo é de 170 milhões
de homens, mulheres e crianças ao todo.
Algumas feministas árabes, como a professora
Amina Wadud Muhsin, atualmente professora na Universidade
da Virginia, argumentam que os homens se valeram
de interpretações tendenciosas do
Livro Sagrado para, nos últimos 1400 anos,
limitar ou extinguir os sucessivos surtos de feminismo
islâmico. Um livro que toca diretamente
no problema é a história dramática
da Princesa Sultana. A Dama é uma aristocrata
da família real saudita. A opressão
humilhante e tenebrosa que sofrem as mulheres
sob o regime corânico, mesmo as de melhor
educação e cultura européia,
é ilustrada nessa obra de 1992, revelada
por Jean Sasson. A princesa procura provar que,
pelo menos, as mulheres islâmicas de maior
cultura estão, corajosamente, principiando
a reagir contra os hábitos arcaicos que
sua sociedade ainda alimenta.
Outro livro é o de Khalida Messaoudi, uma
argelina que, traumatizada pelo horror da guerra
civil provocada pelos fanáticos islamitas,
de um lado, e os não mais tolerantes militares
do outro, publicou em França, em 1995,
um relato de sua atitude "Irredutível"
diante da tragédia. Khalida muito claramente
coloca na questão sexual o cerne da reação
fundamentalista que agita o mundo islâmico.
Ela alega que o Fundamentalismo, como qualquer
movimento totalitário, deseja exercer controle
absoluto sobre a sociedade, dando-se conta que
a melhor maneira de atingir seu propósito
de dominação é exercer a
repressão sobre a sexualidade feminina,
coisa que o estilo patriarcal do Mediterrâneo
facilita.
"O que as mulheres representam é
o desejo, a sedução, o mistério,
o incômodo mas também a ‘alteridade’
que é imediatamente visível em seus
corpos”. É por isso que os islamitas
se sentem tão ansiosos em esconder o corpo
feminino. Freneticamente procuram cobri-lo de
véus, encapuza-lo, fazer com que as diferenças
biológicas desapareçam dos sinais
corporais exteriores. As mulheres que resistem,
conclui a corajosa argelina, se tornam símbolos
da Alteridade individualista que o totalitarismo
procura eliminar.
Pelo absolutismo e exclusivismo de suas atitudes
dominadoras, o Islam constitui o baluarte mais
obstinado da "falocracia patriarcal".
Contra os arremedos do feminismo, ele tenta manter
a hegemonia masculina na estrutura da sociedade
dita tradicional. Acentuemos que, em outros países
não-árabes da área, como
a Turquia, Líbano, Malásia e Indonésia,
não podemos observar uma subserviência
tão acentuada das mulheres. Quando o grande
Kemal Atatürk decidiu modernizar seu país,
concedeu às mulheres os mesmo direitos
dos homens, invocando uma legislação
ocidental - ou, mais especificamente, o Código
Napoleão. Na Turquia, Paquistão
e Indonésia mulheres já alcançaram
a chefia do governo, privilégio que poderá
contribuir para encorajar o movimento feminista.
Mas outro aspecto, ainda mais odioso, do fenômeno
do machismo islâmico é o hábito,
vigente no Egito, em grande parte da África
negra e em alguns países árabes
do Oriente Médio, de mutilação
genital ou "circuncisão" do clitóris
das meninas - uma prática destinada a dificultar
a masturbação ou eliminar a possibilidade
de orgasmo quando se tornam mulheres. A operação
comporta a cliterodectomia ou a extirpação
dos lábios vaginais e, em alguns casos,
a chamada infibulação, que consiste
numa sutura nos órgãos genitais
para tornar o coito impossível. Embora
se afirme que nada no Corão justifique
o abominável costume, o fato é que
dele sofrem uma multidão de mulheres. Fala-se
na cifra de 130 milhões. Em 1996, o governo
egípcio declarou imoral e ilegal a prática,
depois de haver constatado que 70% das mulheres
na área urbana e 95% no campo teriam sido
submetidas a alguma forma de mutilação,
a maior parte das vezes por métodos primitivos.
A questão continuaria a ser discutida nos
tribunais, em face da postura dos ulemas.
Tal situação cria um verdadeiro
abismo com o Ocidente moderno que se globaliza.
O assunto tem sido alvo de protestos por entidades
internacionais, atentas aos direitos humanos e
direitos da mulher, inclusive em uma reunião
sobre o tema realizada em março de 1997,
no Rio. As reações anti-feministas,
entretanto, não se limitam à área
do Islam.
Conclusões
Podemos acentuar, em conclusão, que a
seriedade da problemática criada pelos
Fundamentalistas muçulmanos como infensos
à modernidade, reside na recusa obstinada
a superar seu machismo patriarcal. Em nenhuma
outra religião ou sociedade política
(no Islam, elas se confundem) a resistência
ao feminismo é tão tenaz. Mesmo
na Igreja católica, é pouco provável
que as injunções papalinas ainda
contenham por muitos anos o aggiornamento nesse
terreno. É um problema de rebelião
contra a modernidade que poderá acarretar
conseqüências funestas no futuro. A
questão se relaciona, evidentemente, com
o extremismo chauvinista do macho e, sustentado
em Escrituras religiosas, o Machismo muçulmano
agrava o dilema desses países na alternativa
de integrar-se ou não à modernidade
global - uma alternativa que poderá ser
de árdua solução, acarretando
graves conflitos como desde agora estamos testemunhando.
As discrepâncias entre o Ocidente americanizado
e o Islam se poderá tornar catastrófico
pois, daquele lado, o exagero é diametralmente
oposto ao libertinismo imperante em alguns círculos
deste nosso lado. Indiscutivelmente, as teses
sobre uma futura possível apartheid do
mundo islâmico numa sociedade internacional
progressivamente mais aberta e cosmopolita, devem
levar em consideração essas reações
grotescas e sanguinárias tanto no que diz
respeito às conseqüências mais
radicais da Revolução sexual, quanto
às circunstâncias que exigem o pluralismo,
a tolerância, o respeito pelos direitos
individuais, a liberdade das minorias étnicas,
a liberdade de comunicação e a liberdade
de ir e vir - em suma, todas aqueles princípios
que caracterizam uma sociedade democrática
e liberal moderna.
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NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Em conseqüência
dos eventos dos últimos anos relacionados
com o terrorismo, uma série de livros têm
sido publicados nos EUA e na Grã-Bretanha
sobre a questão. Um artigo do professor
Clifford Geertz, da Universidade de Princenton,
na Now York Review of Books de 3 de julho, analisa
perfeitamente as posições dos principais
autores, ocidentais e muçulmanos, que tratam
do tema. Gilles Kepel em Jihad: The Trail of Politicall
Islam (Harvard U.P.); Daniel Pipes em Militant
Islam Reaches America (Norton) e, de Stephen Schwartz,
The Two Faces of Islam: The House of Sau’ud
from Tradition to Terror (Doubleday) são
pessimistas e antecipam uma verdadeira guerra
contra o totalitarismo territorístico islâmico.
Dois outros livros são mais moderados e
puramente objetivos The Future of Political Islam,
de Graham Fuller (Palgrave) e After Jihad: América
and the Struggle for Islamic Democracy, de Noah
Feldman (Farrar, Straus & Gurioux). Finalmente,
citaríamos duas outras obras que defendem
o ponto de vista dos muçulmanos: Faithlines:
Muslim Conception of Islam and Society, de Riaz
Hassan, publicado pela Universidae de Oxford,
assim como The Ulama in contemporary Islam: Custodian
of Change, de Muhammad Qasim Zaman, publicada
pela Universidade de Princenton, naturalmente
muito mais otimista quanto ao conflito e antecipando
uma vitória final dos meios islâmicos
que desejam a modernização de suas
sociedades e uma conciliação entre
os reclamos da fé belicosa e o desejo das
elites ocidentalizadas de encontrar um terreno
de acordo entre o liberalismo global e o Fundamentalismo.
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